Presidente Prudente, a que nasceu para ser cabeça, referência e o farol de progresso para todo o Oeste Paulista, carrega hoje uma contradição que sufoca: tem todas as condições para voar, mas escolhe caminhar de cabeça baixa, olhando fixamente para o retrovisor. Os trilhos que outrora trouxeram a modernidade e desbravaram o sertão parecem agora delimitar os muros de uma inércia crônica. Falta aos nossos prefeitos o espírito empreendedor; sobra-lhes a covardia política de gerenciar a decadência em vez de desenhar o futuro.
Geograficamente privilegiada, dona de terras férteis e erguida pelo suor de uma gente operosa, a nossa região amarga o paradoxo de figurar entre as menos dinâmicas do estado de São Paulo. Nosso PIB municipal, que arranha a casa dos R$ 8 bilhões, representa uma ínfima fatia de aproximadamente 0,4% da riqueza paulista. É o retrato de uma economia de passagem, sem agroindustrialização ou força política para reter o valor gerado: a riqueza escorre pelas rodovias em direção aos grandes centros, deixando por aqui o esforço bruto, a poeira e a promessa não cumprida.
O orçamento de 2026, estimado em R$ 1,23 bilhão, desenha a crônica de um cativeiro anunciado. Quase 86% dessa receita já nascem carimbados, sequestrados pelas obrigatoriedades da folha de pagamento, saúde, educação e o sufocante aporte de quase 12% destinado unicamente a estancar o rombo fiscal da previdência municipal. O que resta para investir, transformar e planejar o amanhã? Míseros 13%. Condenada a essa asfixia, a gestão pública vive de pires na mão, dependendo da caridade de emendas parlamentares e favores políticos para executar o básico. Agem como síndicos assustados de um prédio em ruínas, nunca como CEOs de uma cidade que precisa competir no cenário estadual.
No centro desse colapso gerencial, a administração pública alimenta fantasmas que se recusa a exorcizar. A Prudenco, concebida para ser o motor do desenvolvimento urbano, transmutou-se em um balcão de acomodação de interesses paroquiais e cabides de emprego, sobrevivendo de repasses emergenciais que a coletividade é forçada a engolir. Ao lado dela, a Prudenprev carrega um déficit atuarial que ultrapassa os R$ 340 milhões. Solucionar esse buraco exigiria reformas duras e impopulares. Mas o cálculo eleitoral imediato sempre vence o compromisso histórico: nenhum governante quer iniciar o mandato tencionando com corporações organizadas. É mais confortável empurrar o desastre com a barriga, deixando que a bomba estoure nas mãos do sucessor.
Para além dos passivos herdados, a incompetência gerencial foi tabelada e roda livremente pelas nossas avenidas esburacadas através do transporte coletivo urbano. A prefeitura paga cerca de R$ 10 por quilômetro rodado à concessionária — um modelo de remuneração técnica que premia o odômetro e pune a inteligência logística. Para a empresa, o lucro está garantido quer o ônibus transporte cem trabalhadores, quer circule batendo banco pelas ruas vazias. O município assume o risco do fracasso, enquanto a concessionária fatura pela mera presença física de sua frota.
Enquanto cidades de mesmo porte e complexidade — como Marília ou Indaiatuba — utilizam bilhetagem inteligente, redes dinâmicas e amarram seus subsídios a metas ferozes de qualidade e satisfação do usuário, Prudente assina o cheque em branco do conformismo. Falta a mentalidade de mercado para entender que transporte público não é favor ou concessão irremediável; é eficiência fiscal.
Acima das falhas fiscais, o que realmente apequena a Capital da Alta Sorocabana é a desunião crônica que fratura suas lideranças. Os interesses de facções e grupos se sobrepõem, invariavelmente, ao bem comum.
Governar virou o artifício covarde de “ganhar tempo”, mas quem adia a escolha, escolhe o declínio.
Presidente Prudente não é refém da falta de potencial; é vítima da falta de ousadia. A outrora imponente Capital da Alta Sorocabana continua à espera — nas esquinas de sua história — de quem possua a grandeza de colocar a cidade acima de si mesmo e a audácia de fazer, finalmente, o que precisa ser feito.


