A República das Bananas é uma instituição generosa; ela não exige que seus figurões troquem de figurino para mudar de papel. No mais recente capítulo do teatro institucional brasiliense, apurado e trazido a público pelo analista político Caio Junqueira, da CNN Brasil, o palco eleitoral viu os limites da liturgia republicana derretem em banho-maria. O cenário descrito é direto: ministros do Supremo Tribunal Federal, sob a batuta ostensiva de Alexandre de Moraes, atuaram nos bastidores para “sensibilizar” os caciques do Centrão — leia-se União Brasil, PP e Republicanos — a fecharem as portas para uma aliança com a candidatura de Flávio Bolsonaro.
O método de convencimento, no entanto, dispensou a erudição dos autos ou a defesa abstrata da democracia. A mensagem que circulou pelas alamedas do Poder trazia uma precisão cirúrgica: o ritmo das investigações e inquéritos que tramitam na Corte contra essas lideranças partidárias dependeria, diretamente, da posição que adotassem no tabuleiro presidencial. Tratou-se de uma gestão de prazos processuais aplicada como moeda de troca partidária.
Diante do recado, os bravos líderes da política nacional agiram com a firmeza de quem gerencia os próprios riscos. Ciro Nogueira, no PP, tratou de frear entusiasmos e inviabilizar nomes para a composição da chapa.
Marcos Pereira, no Republicanos, reuniu-se com Moraes e, dias depois, selou a neutralidade do partido enquanto via correligionários migrarem para o alinhamento com o governo. O que a narrativa oficial vende como “gestos de responsabilidade e moderação” nada mais é do que o instinto primário de preservação de pele diante da ameaça da caneta alheia.
A gravidade do episódio prescinde de contornos ideológicos; o problema não é a cor da bandeira de quem sobe ou desce no palanque, mas o fato de que o árbitro resolveu escalar a si mesmo como centroavante.
Quando o STF passa a operar como um diretório partidário informal e a tramitação de um processo ganha mais celeridade ou morosidade conforme o alinhamento de uma sigla, o conceito de devido processo legal perde o sentido. A investigação deixa de buscar a justiça para atuar como instrumento de intimidação.
Transformou-se a Praça dos Três Poderes em um balcão de liquidação de garantias constitucionais, onde o cálculo das conveniências substitui a regra do jogo. O eleitor, ingenuamente convidado às urnas para exercer a sua soberania, descobre que as opções de seu cardápio já foram previamente filtradas em jantares e conversas reservadas, sob a promessa implícita de gavetas fechadas ou inquéritos abertos. É a consolidação de um sistema onde a democracia serve unicamente para legitimar a permanência do mesmo grupo no comando, reduzindo a Constituição a um mero detalhe estético.



