A história, diferente das manchetes de ocasião, não se escreve ao ritmo dos slogans de momento ou dos interesses eleitorais imediatos. Ela se consolida quando a poeira das narrativas baixa e os fatos objetivos emergem. Olhar para a condução global e nacional da pandemia de Covid-19 exige agora encarar o desfecho de acusações graves e o inevitável acerto de contas com a realidade.
No centro da arquitetura global de restrições, o Dr. Anthony Fauci personificou durante anos a figura do guardião supremo da saúde pública mundial. Suas diretrizes orientaram lockdowns rigorosos, paralisações escolares e o fechamento do comércio que devastaram economias e balançaram estruturas sociais. Contudo, confrontado formalmente no Congresso americano sobre suas declarações, omissões e o financiamento de pesquisas de risco na China, Fauci recorreu mais de uma centena de vezes à Quinta
Emenda da Constituição dos Estados Unidos — a prerrogativa legal de se manter em silêncio para não produzir provas contra si. O homem que cobrava obediência cega em nome da ciência optou pela proteção do silêncio jurídico quando chamado a prestar contas de seus atos.
No Brasil, o uso da crise sanitária como plataforma política seguiu um roteiro igualmente agressivo. O ex-presidente Jair Bolsonaro foi sistematicamente adjetivado com o termo “genocida” por opositores e por setores expressivos da grande imprensa. No entanto, à medida que os processos e inquéritos no Supremo
Tribunal Federal (STF) foram analisados sob a luz técnica da Procuradoria-Geral da República (PGR), os pedidos de responsabilização criminal sobre as decisões centrais da pandemia foram arquivados por falta de elementos delituosos diretos. A narrativa do enquadramento penal caiu por terra nos tribunais, revelando ter servido precipuamente como instrumento de desgaste político e eleitoral.
E como ficam aqueles que transformaram o pânico em capital político?
Enquanto o Executivo federal era alvo diário de ataques e acusações absolutas, governadores e prefeitos atuavam com autonomia total garantida pela Suprema Corte, administrando orçamentos bilionários sem a devida fiscalização preventiva. Essa blindagem seletiva abriu espaço para graves escândalos de corrupção, como o caso do Consórcio Nordeste, no qual quase R$ 50 milhões em dinheiro público foram pagos antecipadamente por respiradores que nunca chegaram aos hospitais. Aqueles que se autoproclamavam paladinos da saúde pública e defensores da vida demonstraram, no uso do dinheiro público, uma irresponsabilidade estarrecedora.
A grande mídia, por sua vez, enfrenta hoje o seu próprio tribunal de credibilidade. O consórcio editorial que rotulou qualquer questionamento razoável como “desinformação” e que silenciou diante de abusos de governantes locais assiste agora ao desmoronamento das versões oficiais que defendeu com dogmatismo.
O silêncio atual sobre a Quinta Emenda de Fauci e sobre o arquivamento das acusações contra adversários políticos expõe uma cobertura que, em momentos cruciais, trocou o jornalismo fiscalizador pela militância de ocasião.
A verdade sobre a pandemia não apaga os traumas, os mortos e as dores da população. Mas a responsabilização histórica já começou. Aqueles que usaram a maior crise de saúde do século como palanque e mercadoria moral ficam expostos perante a sociedade, não pela vingança política, mas pelo veredito implacável do tempo.


