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Presidente Prudente
30 de setembro de 2026
Oeste Cidade
CRÔNICA DO MAGRÃO

A engenharia da cidade: uma crônica do razão, da razoabilidade e da geometria dos números

​Existe um momento em que a poesia do cotidiano precisa sentar-se à mesa com a contabilidade pública. Não por desamor ao lirismo, mas porque as pontes não se erguem com metáforas e as folhas de pagamento não se quitam com boas intenções. Em Presidente Prudente, a cidade real — aquela das dezoito secretarias, dos cinco mil servidores e dos doze quilômetros de avenidas que exigem recapeamento — conversa diariamente com o livro razão de sua própria subsistência.

​Quando abrimos o balanço consolidado como quem lê o prontuário de um organismo vivo, a trajetória fiscal se revela em linha direta. A cidade padece de um estrangulamento estrutural de margem: opera com um orçamento mensal de R$ 103,5 milhões, o que, multiplicado pelos 12 meses do ano, resulta na receita anual prevista de R$ 1,242 bilhão na LOA. Antes mesmo que o dia amanheça, o destino dessa arrecadação já está traçado. A Educação absorve R$ 26,4 milhões por mês (totalizando R$ 317,5 milhões ao ano) e a Saúde consome outros R$ 21,0 milhões mensais (chegando a R$ 253,0 milhões anuais), comprometendo quase metade de todo o caixa municipal com obrigações constitucionais.

​Ao ampliarmos o olhar para o mapa econômico do Estado de São Paulo, o desafio ganha contornos ainda mais nítidos. Presidente Prudente registra um Produto Interno Bruto (PIB) estimado em R$ 10,2 bilhões, o que representa escassos 0,31% a 0,33% do PIB paulista (de R$ 3,2 trilhões). Para uma capital regional que exerce influência direta sobre mais de cinquenta municípios da Alta Sorocabana, representar apenas um terço de um por cento da riqueza do Estado expõe o descompasso entre sua liderança política e sua capacidade de geração de valor.

​A razão desse descompasso fica evidente quando comparamos Prudente com polos regionais de porte semelhante, seguindo a mesma matemática de multiplicar o orçamento mensal pelos 12 meses do exercício:

​Marília (SP): Com população equivalente (237 mil habitantes), mantém um orçamento mensal de R$ 136,6 milhões. Ao longo de 12 meses, alcança R$ 1,64 bilhão por ano — injetando R$ 33,1 milhões a mais por mês no caixa público do que Prudente. Essa liquidez decorre de sua fatia industrial de 28,5%, impulsionada pelo polo alimentício e metalmecânico, que alimenta continuamente a cota-parte do ICMS via Valor Adicionado Fiscal (VAF).

​Araçatuba (SP): Com 200 mil habitantes, alcança um PIB de R$ 11,9 bilhões e PIB per capita de R$ 59.400 (ante R$ 45.200 de Prudente). Operando com um orçamento mensal de R$ 93,3 milhões, soma R$ 1,12 bilhão ao ano (multiplicado por 12), impulsionada por uma participação industrial de 24,7% ancorada no setor agroindustrial e sucroenergético.

Rondonópolis (MT): Polo do agronegócio com 244 mil habitantes, ostenta um PIB de R$ 17,5 bilhões (PIB per capita de R$ 71.400) e um orçamento mensal de R$ 208,3 milhões, que acumulado em 12 meses chega a R$ 2,50 bilhões por ano, sustentado por 38,0% de participação industrial e pelo forte complexo intermodal de grãos.

​Enquanto esses polos vizinhos e do Centro-Oeste estruturaram cadeias produtivas de transformação, Presidente Prudente manteve sua matriz industrial estagnada em tímidos 14,4%, especializando-se no setor de serviços e no comércio varejista. O elevado Índice de Desenvolvimento Humano (IDH 0,806) assegura excelente qualidade de vida e rede de proteção, mas atua como um amortecedor social, e não como um propulsor de crescimento econômico.

A engrenagem financeira local revela outro obstáculo sequencial: o vetor de evasão de divisas. A massa salarial urbana circula na ordem de R$ 300 milhões por mês (chegando a R$ 3,6 bilhões após 12 meses), mas flui precipuamente para o grande varejo e atacarejos instalados nas margens das rodovias. O dinheiro roda na cidade, mas o Valor Adicionado Fiscal evapora. Grandes redes capturam a renda familiar, empregam com salários de piso (1,1 a 1,5 salário mínimo) e transferem seus lucros para matrizes fora do município. Como operam com créditos tributários centralizados, a retenção de VAF local é reduzida, minguando o retorno de ICMS ao município, enquanto o comércio tradicional de bairro — que reinvestia localmente contratando serviços e fornecedores da cidade — perde terreno de forma contínua.​

Na ponta das despesas fixas, a rigidez do orçamento se aprofunda. A previdência municipal (Prudenprev) exige R$ 18,6 milhões por mês (somando R$ 224,08 milhões ao ano, diante de um déficit atuarial acumulado de R$ 1,2 bi a R$ 1,5 bi). A Prudenco consome outros R$ 8,33 milhões mensais (totalizando R$ 100 milhões em 12 meses) para cobrir custos operacionais, depreciação de frota e passivos trabalhistas históricos. Como resultado direto dessa cadeia de empenhos, a Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SEDEPP) dispõe de minguados R$ 163 mil por mês — que multiplicados por 12 resultam em R$ 1,96 milhão anuais, ou menos de 0,16% do orçamento global.

​A travessia desse cenário exige a execução encadeada de quatro medidas estratégicas de reengenharia:
​Reforma Administrativa Severa: Fusão imediata das 18 secretarias em 10 Supersecretarias, enxugando cargos em comissão e redirecionando recursos burocráticos para investimento direto.

​Reestruturação Operacional da Prudenco: Concessão dos serviços de transbordo e destinação de resíduos sólidos, direcionando a mão de obra celetista para frentes diretas de zeladoria e pavimentação urbana.
​Monetização Patrimonial para a Prudenprev: Integralização de imóveis e áreas públicas ociosas em um Fundo Imobiliário dedicado à Prudenprev, amortizando progressivamente o déficit atuarial sem sufocar o Tesouro.

​Política Tributária Focada no VAF: Redirecionamento da atração de investimentos para agroindústrias e empresas de transformação leve, elevando a fatia industrial dos atuais 14,4% rumo aos patamares de Marília (28,5%) e Araçatuba (24,7%), expandindo a arrecadação futura de ICMS.

​A contabilidade de uma cidade não deve ser um registro passivo de suas limitações, mas o ponto de partida de sua autonomia. Quando a administração pública analisa o fluxo mensal, multiplica-o com precisão pelos doze meses do ciclo e age com rigor sobre cada variável, o orçamento deixa de ser uma peça cartorial e converte-se na verdadeira engenharia do futuro.

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