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16 de setembro de 2026
Oeste Cidade
CRÔNICA DO MAGRÃO

A República dos Demônios Mudos

​A calmaria em Brasília não é paz; é o silêncio pesado que precede o sepultamento de uma nação. Se Aristóteles caminhasse hoje pela Praça dos Três Poderes, não veria ali uma pólis organizada para o bem comum, mas um sarcófago de mármore onde a ética foi degolada em praça pública. O Brasil de hoje não sofre por meros desvios administrativos ou equívocos de gestão: sofre pelo apodrecimento moral das suas mais altas autoridades, entronadas em cargos que deveriam exigir a virtude e entregues à mais absoluta torpeza.​

No topo da pirâmide da arrogância, o Supremo Tribunal Federal rasgou a toga para vestir a armadura do arbítrio. Os ministros, que deveriam personificar a phronesis — a prudência suprema —, transformaram-se em juízes imperiais que investigam, acusam, julgam e punem segundo a conveniência do momento. Sob o manto de uma falsa defesa da democracia, atropelam a Constituição, perseguem opositores e acumulam escândalos que envergonhariam até os tribunais de exceção da história. Quando a suprema corte de um país se converte no epicentro da insegurança jurídica e do absolutismo, a justiça deixa de existir; resta apenas a tirania travestida de legalidade.

​Atrás das portas entalhadas do Congresso Nacional, a tragédia ganha contornos de covardia vulgar. A presidência do Senado, investida pelo voto para ser o freio constitucional aos abusos do Judiciário, arrasta-se de joelhos. O presidente do Senado e a liderança parlamentar escondem-se atrás do cálculo miúdo, engavetando pedidos de impeachment e blindando ministros em troca de verbas, cargos e impunidade pessoal. É o triunfo da mediocridade capitulada: homens dotados de poder institucional que preferem a servidão envergonhada ao dever histórico de honrar o mandato que o povo lhes confiou.

​Enquanto isso, no Palácio do Planalto, a chefia do Executivo degrada-se no populismo rasteiro e na mentira compulsória. Um Presidente da República que governa de costas para a verdade, manipulando narrativas fáceis para alimentar a militância e disfarçar a incapacidade crônica de liderar. Promessas vazias, malabarismos estatísticos e a busca obsessiva por um bode expiatório tornaram-se o único método de governo, reduzindo a Presidência a um palanque perpétuo de ilusões para anestesiar uma população exausta.

​E onde estão as Forças Armadas, guardiãs da pátria e fiadoras da ordem? Silenciosas. A omissão dos Generais e do alto comando revela uma letargia que raia a cumplicidade. Paralisados pelo medo de perder privilégios burocráticos ou de ferir melindres políticos, assistem passivos à corrosão das instituições democráticas, incapazes de erguer a voz — mesmo que moralmente — contra o descalabro que destrói o país por dentro.

Aristóteles e Dante sabiam exatamente onde essa podridão termina. Na Ética a Nicômaco, o estagirita adverte que o pior dos homens é aquele que usa a razão para perverter a comunidade. Na Divina Comédia, Dante reservou os círculos mais profundos e congelados do Inferno não aos impulsivos, mas aos maus conselheiros, aos simoníacos que venderam o sagrado pelo poder e aos traidores da pátria.

A indignação não é mais uma opção estética; é o último sobressalto de dignidade que resta ao cidadão brasileiro. Toleraremos até quando o espetáculo desses demônios mudos e mestres da fraude? Uma nação que se acostuma com a covardia dos seus líderes e com a tirania dos seus juízes não está apenas sendo enganada: está assinando, com a própria passividade, o seu atestado de servidão.

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