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6 de julho de 2026
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CRÔNICA DO MAGRÃO

​O Último Romântico e o Labirinto dos Gênios

​O futebol, antes de se tornar esse emaranhado de dados estatísticos e coletivas protocolares, sempre foi um jogo de afetos, mistérios e convicções cegas. Ninguém entendeu isso melhor do que Carlos Bilardo.

Quando o “El Doctor” — médico de formação e ginecologista por direito — assumiu a Argentina em 1983, ele não viu apenas um camisa 10 contestado pelas passagens apagadas em Copas e pelas cicatrizes deixadas no Barcelona. Ele viu o epicentro de uma revolução.

​Bilardo cruzou o Atlântico, viajou à Espanha e, numa conversa que mudaria a história do esporte, entregou a Diego Maradona não apenas a braçadeira de capitão, mas as chaves de uma nação inteira. Desenhou um 3-5-2 revolucionário para que o gênio não precisasse correr atrás de laterais; o esquema era uma armadura tecida para proteger e potencializar o rei. “Maradona e mais dez”, decretou o Doutor. O resultado de 1986 foi a imortalidade, a “Mão de Deus” e a assinatura da maior atuação individual que uma Copa do Mundo já viu.

Décadas mais tarde, quando Diego partiu, o próprio Bilardo já habitava o silêncio frágil da síndrome de Hakim-Adams. Protegido por sua família, o velho mestre foi poupado de saber que seu maior pupilo já não respirava. Uma blindagem de amor que ecoa a mesma proteção que ele, um dia, deu a Diego nos gramados.

​Enquanto a Argentina soube acalentar e potencializar seus gênios, o Brasil parece ter desaprendido a arte de abraçar os seus.

​Olhamos para o cenário atual e a rima histórica se impõe, dolorosa. O Brasil produziu um único jogador fora de série nesta geração: Neymar. Mas, ao contrário de Diego, Neymar nunca encontrou seu Bilardo. Imaginou-se, por um momento, que Carlo Ancelotti cruzaria o oceano com o mesmo veredito pacificador, olhando nos olhos do craque para dizer: “Fique tranquilo, se prepare. Será você e mais dez”.

​Não aconteceu. No lugar da sensibilidade cega que eleva os mitos, o futebol brasileiro preferiu o tribunal. Uma imprensa frequentemente militante e focada no extracampo, somada a uma CBF historicamente perdida em seus próprios labirintos políticos, preferiram o massacre à proteção. Trataram o último romântico do drible não como o patrimônio que precisava de uma armadura tática e psicológica, mas como o eterno réu de um julgamento sem fim.

​O futebol pune a falta de carinho com a escassez. Sem o divã do “Doctor” e sem a ousadia de quem monta um exército para um homem só, o Brasil assiste ao ocaso de seu último fora de série entre o “quase” e a nostalgia. Deu no que deu. E o preço de não termos sido Bilardo é carregar o peso de um hexacampeonato que insiste em ficar apenas na imaginação.

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