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2 de julho de 2026
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CRÔNICA DO MAGRÃO

O Centauro Tropical e o Leviatã Remendado

O relógio na parede da biblioteca batia as duas da manhã. Sob o candeeiro, dois homens de séculos distintos dividiam o mesmo silêncio. Um vestia o linho da Florença renascentista; o outro, o veludo da Inglaterra setecentista. À mesa, uma garrafa de cachaça envelhecida e um mapa do Brasil.
​— Veja este leviatã, Thomas — disse Maquiavel, apontando as fronteiras do país. — É imenso, mas suas engrenagens são movidas a vaidade, não apenas medo.

​Hobbes ergueu os olhos severos

​— O medo é a única argamassa que dura, Nicolau. Sem o soberano para conter o lobo que habita no peito de cada homem, a vida seria curta, solitária e brutal. Olhe para este território: o povo aceita o peso sufocante desse Estado burocrático porque tem pavor do caos, da violência urbana, do colapso econômico.

A segurança sempre precede a liberdade

​Maquiavel sorriu, o sorriso fino de quem viu repúblicas caírem ao sabor da Fortuna.
​— O medo afasta o lobo, mas o homem aprende a domesticá-lo. O poder aqui não é uma estátua de ferro fundido como o seu monstro; é uma dança de máscaras. O governante precisa ser leão para impor respeito, mas deve ser raposa para sobreviver ao Parlamento. Ninguém governa esta terra sem negociar com o “Centrão”, esse consórcio de interesses tangíveis que não se move por ideologia, mas por emendas e fatias do orçamento. É a eterna gestão da escassez. Toque no patrimônio dessas oligarquias e o seu Leviatã ruirá, roído por cupins.

​— Mas a ordem é um imperativo absoluto! — rebateu Hobbes. — Quando o pacto se rompe nas periferias, onde o Estado falha em manter o monopólio da força e cede espaço a poderes paralelos, a civilidade evapora.

​— O erro — interveio Maquiavel, servindo o pragmático destilado — é crer que o conflito é um defeito. No Brasil, o conflito é o sistema. As crises fiscais e as tensões entre os Poderes não são anomalias; são as ferramentas de governabilidade. Trata-se do choque entre elites organizadas sobre uma massa que oscila entre a apatia e explosões passionais. A Virtù do político tropical não está na pureza dos ideais, mas na capacidade de entregar anéis para salvar os dedos, moldando a narrativa que a opinião pública deseja consumir.

​Lá fora, o vento da madrugada soprava sobre Brasília e os rincões do país. Os dois fantasmas sabiam que, mudando-se os nomes, o teatro era o mesmo. O Brasil não desafiava as leis da ciência política; era a sua expressão mais crua. Um Leviatã fragmentado que se equilibra no limite do abismo, sobrevivendo não apesar de suas contradições, mas exatamente por causa delas. Na física do poder, a estabilidade nasce do arranjo inteligente de forças contrárias que, ao tentarem se anular, mantêm o país em seu eterno, trágico e pragmático movimento.

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