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Presidente Prudente
24 de junho de 2026
Oeste Cidade
CRÔNICA DO MAGRÃO

A Cidade dos Sete Sóis e o Dinheiro Sem Pátria

Quem caminha no fim de tarde pela Avenida Ana Jacinta ou espera o ônibus nos abrigos do Humberto Salvador não enxerga os números frios dos relatórios econômicos. Enxerga rostos. Rostos calejados de uma classe C e D que acorda antes do primeiro raio de sol, cruza a cidade na garupa de uma moto ou no aperto do transporte público e vende sua força de trabalho para ver o mês caber no bolso. É a vibrante e invisível força motriz de Presidente Prudente e de toda a Alta Sorocabana.

​Há uma profunda e perversa ironia que desenha a nossa economia regional. Se somarmos o suor de cada trabalhador, de cada atendente, de cada operador de caixa e repositor de Prudente e das cidades que nos cercam — como Regente Feijó, Martinópolis e Álvares Machado —, descobrimos uma massa salarial avassaladora. Estamos falando de cerca de R$ 280 milhões a R$ 320 milhões injetados mensalmente na economia de Presidente Prudente pela base da pirâmide. Quando expandimos o olhar para o colar regional da Alta Sorocabana, esse montante ultrapassa a impressionante marca de R$ 750 milhões todos os meses.

O dinheiro existe. Ele brota diariamente do esforço popular. O paradoxo, contudo, é que esse oceano de recursos evapora da nossa terra com a mesma velocidade com que é gerado.

​O cenário urbano recente foi engolido pelas cores berrantes e fachadas monumentais das grandes redes de atacadistas e hipermercados nacionais. Eles chegam com o discurso salvador do progresso, anunciando a “geração de centenas de empregos”. O que não se diz, nas letras miúdas dessa lógica de mercado, é que o emprego gerado frequentemente paga o piso da categoria, o suficiente apenas para que o trabalhador garanta a subsistência imediata, sem margem para respirar, sem direito ao amanhã.

​A engrenagem é desenhada para sugar, não para fixar. O morador da periferia recebe seu salário e, quase que por obrigação, o devolve integralmente nos caixas dessas mesmas megacorporações para comprar o arroz, o feijão e o óleo. O consumo é expressivo, a massa salarial de quase R$ 1 bilhão na região é real, mas a riqueza é estrangeira. Quando o código de barras é bipado no caixa, ocorre uma sangria invisível: o ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços), que deveria se transformar em asfalto nas nossas ruas, leitos nos nossos hospitais e melhorias nas nossas escolas, não fica aqui. Ele viaja por cabos de fibra óptica direto para as sedes dessas empresas em São Paulo, Rio de Janeiro ou no exterior.

​Prudente e região alimentam um gigante que mora longe, enquanto suas próprias artérias secam. Há uma gritante incoerência pública que mascara essa realidade. Aceita-se a migalha do emprego de salário mínimo como se fosse o ápice do desenvolvimento, enquanto a política pública local se omite na hora de negociar contrapartidas reais. Falta a altivez de exigir que o imposto desse consumo avassalador reverta-se, por direito e convênio, em benefício da cidade que de fato gerou a riqueza. Permitir que o imposto gerado pelo suor prudentino vá embora é assinar um termo de submissão econômica.

​É nesse solo fértil de contradições que o trabalhador se vê emparedado. Com salários baixos e o custo de vida sufocante, a grande maioria das famílias recorre ao endividamento. E quando o calo aperta, a quem eles recorrem? Às financeiras tradicionais que cobram juros de agiota institucionalizado, arrancando o couro de quem já não tem pele. O sistema financeiro tradicional e as grandes redes de varejo atuam em perfeita simetria: um paga pouco, o outro cobra muito, e ambos enviam o lucro para bem longe da Alta Sorocabana.

​Olhar para esse cenário exige mais do que indignação; exige a ousadia de romper o ciclo. A economia local precisa de um modelo que jogue a favor de quem está no chão de fábrica, de quem vive a rotina de equilibrar o prato para não passar fome. Precisamos de mecanismos que mantenham o dinheiro circulando no comércio de bairro, fortalecendo o mercadinho do seu Zé, a oficina do Willian, a economia que tem nome, sobrenome e endereço em Presidente Prudente.

​Enquanto a riqueza gerada aqui — esses quase R$ 1 bilhão mensais de puro suor regional — continuar a pegar a rodovia sem pagar pedágio de volta para a nossa gente, continuaremos a ser uma região rica povoada por trabalhadores que vivem, estritamente, para sobreviver. E a história da nossa gente merece muito mais do que a sobra do banquete alheio.

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