Há muito tempo, o futebol no Brasil deixou de ser apenas esporte, paixão ou entretenimento. Transformou-se em um dos instrumentos políticos mais eficazes, perversos e duradouros que este país já conheceu. E o que acontece com Neymar é apenas o exemplo mais escancarado, mais cruel e mais revelador dessa estrutura de poder.
Para governantes incompetentes, gestores inábeis e classes políticas inteiras que não têm a oferecer nada além de promessas não cumpridas, corrupção endêmica e estagnação social, uma vitória da seleção não é só uma alegria coletiva: é uma tábua de salvação. É a chance de ver a população aplaudir, sorrir e, por alguns dias ou semanas, esquecer que a saúde pública é um caos, que a educação é precária, que a segurança é insuficiente e que a desigualdade só aumenta. A euforia efêmera de um título serve como anestésico social: compra o silêncio, abafa as críticas e converte a emoção momentânea em apoio político e votos.
Mas quando o resultado não vem, a mesma lógica se inverte com uma frieza calculada. Se a conquista salva o governo, a frustração precisa encontrar um culpado — e não pode ser quem manda, quem decide e quem administra o país. Não pode recair sobre a estrutura falida, sobre a falta de projeto, sobre a mediocridade de quem governa. Tem que cair sobre alguém visível, conhecido, exposto: o jogador principal.
É aí que nasce essa perseguição doentia e obsessiva a Neymar. Não se trata de análise técnica, nem de cobrança justa por desempenho. Trata-se de uma estratégia deliberada. Parte da imprensa esportiva, muitas vezes subserviente a interesses econômicos e políticos, alimenta o ódio, exagera cada deslize, transforma cada lesão em fraqueza, cada escolha pessoal em crime e cada derrota em responsabilidade exclusiva dele. O objetivo é simples: desviar o foco.
E o pior vem das próprias autoridades: do presidente da República, de deputados e representantes ligados ao governo, que entram no coro com uma veemência suspeita. Não criticam para melhorar o futebol; criticam para jogar sobre o atleta o peso de todos os problemas que eles mesmos são incapazes de resolver. Querem que o povo olhe para Neymar e veja nele a causa de todas as suas frustrações, para que nunca olhem para eles e cobrem o que realmente lhes compete.
Essa obsessão tem um conteúdo político explícito. Neymar é elevado a herói quando convém à narrativa oficial, para ser usado como símbolo de “orgulho nacional” e emprestado para discursos de campanha. Mas deixa de ser útil no momento em que não traz vitórias — e então passa a ser rebaixado, difamado, perseguido como se fosse ele o responsável pela miséria, pela violência e pela incompetência do Estado.
É uma manipulação cruel e desonesta. O jogador joga uma partida de 90 minutos; os governantes administram a vida de milhões por quatro anos. Mas a inversão de papéis é feita com tanta insistência que parte da população acaba acreditando nela. A perseguição a Neymar, portanto, não diz respeito ao futebol — diz respeito a um sistema que precisa de bodes expiatórios para se manter de pé.
Enquanto o povo continuar trocando mudanças reais por vitórias passageiras e aceitar que um atleta pague com sua imagem e sua paz o preço da incompetência alheia, o futebol continuará sendo usado como ferramenta de dominação — e a perseguição continuará, não contra quem erra em campo, mas contra quem serve para esconder os erros muito maiores de quem governa.


