No Brasil, o cinema descobriu uma fórmula que deixaria qualquer investidor de Wall Street perplexo: o lucro que independe do cliente. No balanço de 2025, a conta chegou e os números não aceitam desaforo. Produzimos 203 filmes com a chancela do dinheiro público, mas a estatística é cruel: 57% deles não atraíram sequer mil espectadores.
Para se ter uma ideia, se reuníssemos todos os espectadores desses 115 filmes “fantasmas”, talvez não lotássemos um estádio de médio porte no interior. É o triunfo de um modelo que não fomenta a cultura, mas sim um feudo criativo onde o contribuinte paga o ingresso de uma sessão à qual ele nunca foi convidado.
A Matemática da Indulgência
O caso de O Agente Secreto é o emblema perfeito dessa desconexão. O projeto abocanhou R$ 7 milhões iniciais da Ancine e, numa espécie de “bônus de consolação de luxo”, recebeu mais R$ 800 mil apenas por ser indicado ao Oscar.
O filme não levou a estatueta, não arrebatou a crítica e passou pelas salas de cinema como um sussurro num vendaval. No mundo real, um investimento de quase 8 milhões com retorno zero resultaria em demissões e revisões de estratégia. No feudo da política cultural, vira currículo e plataforma para o próximo edital.
O “Rebelde” de Crachá Estatal
No centro desse palco de vaidades, o ator Wagner Moura desempenha o papel que parece ter se tornado sua segunda pele: o do intelectual orgânico que “lacra” contra o sistema enquanto é alimentado por ele. É uma performance curiosa. Moura encarna uma resistência política feroz, recheada de pautas ideológicas que ressoam lindamente em festivais europeus, mas que soam vazias no subúrbio de Duque de Caxias ou no interior de Goiás.
A hipocrisia é o figurino principal. O discurso é de “arte para o povo”, mas a prática é de arte para os pares. É o artista que posa de revolucionário, mas não abre mão do subsídio estatal que vem justamente do imposto sobre o consumo daquele trabalhador que ele diz representar, mas que não assiste ao seu filme.
O Feudo do Audiovisual
O modelo atual criou uma casta de produtores e artistas que se tornaram especialistas não em contar histórias, mas em preencher formulários.
O sucesso não é a bilheteria; é o empenho da verba.
O objetivo não é a comunicação com a massa; é o aplauso da bolha.
Quando mais da metade da produção nacional não consegue encher uma sala de cinema, o nome disso não é “incentivo à cultura”. É transferência de renda do pobre para o artista de elite.
Enquanto o cinema brasileiro for um diálogo de um feudo consigo mesmo, continuaremos a produzir obras tecnicamente impecáveis, politicamente corretas e socialmente irrelevantes. O cinema brasileiro não precisa de mais editais; precisa, urgentemente, de público. Mas o público, esse “detalhe” incômodo, parece não caber nos planos de quem já garantiu o seu cachet antes mesmo do “Luz, Câmera, Ação!”.



