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2 de fevereiro de 2026
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CRÔNICA DO MAGRÃO

Borodino: O começo do fim de um sonho dourado

​Setembro de 1812. O sol, ainda de verão, beijava os campos ondulantes a oeste de Moscou, mas em Borodino, sua luz parecia tingida de um vermelho que prenunciava sangue. Ali, a Grande Armée de Napoleão, um caleidoscópio de línguas e nações marchando sob a égide de um único e implacável sonho, colidiria com a muralha russa, liderada pelo velho e resiliente, General Mikhail Kutuzov. Não era apenas uma batalha; era um epitáfio que seria escrito com pólvora e suor.

​Napoleão, o pequeno cabo corso que reescrevera o mapa da Europa, estava no auge de seu poder e de sua quimera. Paris e Viena, Berlim e Madri já haviam se curvado. Moscou, a joia dourada do Oriente, era o último elo. A campanha da Rússia, inicialmente um ato de bravata contra o czar Alexandre I, transformara-se na grande obsessão, a última coroa para o imperador dos franceses. Sua Grande Armée, um exército de meio milhão de homens, era a materialização de um ideal de glória, de uma Europa unificada sob o gênio militar. Eles haviam cruzado rios, vilarejos e florestas com a certeza da vitória, embalados pela promessa de uma paz imposta.

​Mas a Rússia não era a Europa central. A cada passo, o exército francês sentia a vastidão da terra engoli-los, o suprimento rarear, e a resistência russa se tornar mais teimosa, uma retirada estratégica que diluía a força invasora. Borodino seria o fim dessa dança evasiva.​

Na madrugada de 7 de setembro, o ar estava pesado com a antecipação. A artilharia abriu o palco para o inferno. Por doze horas, os campos de Borodino testemunharam um horror que transcendia a compreensão humana. As redutes Semionovskaya, os ravinos e as colinas foram tomadas e retomadas, banhadas em sangue, suas terras, antes férteis, agora amolecidas pela morte. Os granadeiros franceses avançavam em ondas implacáveis, os cossacos russos contra-atacavam com fúria. Não havia estratégia sublime aqui; era uma carnificina brutal, um duelo de persistência e sacrifício.

​Napoleão, em sua tenda, observava o desenrolar com uma melancolia que não era de costume. Ele não era mais o jovem e arrojado Bonaparte das batalhas italianas. O custo da glória pesava. O campo, ao final do dia, estava coberto por cerca de 70 mil mortos e feridos de ambos os lados – uma estatística macabra que fazia Borodino ser, talvez, a batalha de um único dia mais sangrenta da história napoleônica.

​Os franceses haviam “vencido” taticamente. Os russos se retiraram, deixando o caminho para Moscou aberto. Mas essa vitória foi o começo do fim de um sonho. Moscou seria conquistada, mas estaria vazia, incendiada pelos próprios russos, uma cidade fantasma que negava o grande troféu ao imperador. O inverno russo, não a resistência militar, seria o algoz final da Grande Armée, transformando a retirada em uma agonia congelante.

​Borodino não foi uma derrota estrondosa no campo de batalha, mas foi o momento em que o mito da invencibilidade napoleônica começou a rachar. Aquele dia sangrento revelou a fragilidade do império construído sobre a guerra incessante. O exército, antes o corpo de um sonho dourado de hegemonia europeia, estava agora mutilado, exausto, a quilômetros de casa, e com um inverno rigoroso à espreita. O sonho de uma Europa sob a estrela de Napoleão, que por um momento parecera tão real e brilhante, começou a congelar na vasta e impiedosa planície russa, abrindo caminho para a sua eventual e inevitável queda. Borodino foi a cicatriz que marcou o começo do fim.

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