21.8 C
Presidente Prudente
3 de fevereiro de 2026
Oeste Cidade
CRÔNICA DO MAGRÃO

​O Caminho e o Engodo: Uma Crônica da Realidade Brasileira

Sentado numa cadeira de praia, sob a geometria das sombras dos coqueiros, sinto a brisa do mar como um afago divino. O som das ondas dita o ritmo, mas é a voz de Frank Sinatra em My Way que sintoniza minha alma. A letra me faz mergulhar nos caminhos que percorri para estar aqui, envolto em lembranças. “O que é um homem se ele não pode ser o que é?”. Olho para trás e vejo perdas, conquistas, perdões e arrependimentos. Fiz da minha vida o meu jeito, mas, ao abrir os olhos para o horizonte além da areia, percebo que o caminho coletivo da nossa nação tomou um rumo bem diferente daquele ideário de liberdade que um dia nos prometeram.

​A felicidade que sinto agora parece uma ilha de ilusão em um oceano de engodos. A Democracia brasileira, com seu discurso de respeito e direito, tornou-se, na prática, uma peça de teatro para o consumo das massas, enquanto nos bastidores o Estado foi sequestrado. O que deveria ser um instrumento de bem-estar social transformou-se em uma engrenagem de extração de riqueza para servir aos interesses de uma elite quadripartite: empresarial, política, judiciária e a alta cúpula do funcionalismo público.
​A análise é crua e os números não aceitam a poesia da brisa. Vivemos sob o peso do Judiciário mais caro do planeta, uma estrutura que consome cerca de 1,6% do PIB (aproximadamente R$ 160 bilhões anuais), enquanto a média mundial não passa de 0,5%. É uma ilha de privilégios sustentada por penduricalhos, auxílios e férias de 60 dias que elevam contracheques muito acima do teto constitucional, criando supersalários que insultam o cidadão que luta pelo mínimo.

Nesse vácuo de ética, o que vemos é um STF militante e nocivo, que deixou de ser o guardião da Constituição para se tornar um ator político ativo. Sob o pretexto de “defender a democracia”, assistimos a abusos de autoridade, inquéritos sem fim e a uma perseguição que sufoca a liberdade de expressão. É a inversão total: o tribunal que deveria garantir a segurança jurídica é hoje o maior promotor de incertezas, anulando escândalos financeiros bilionários e devolvendo ao jogo figuras que lesaram a pátria, enquanto aperta o garrote sobre o cidadão comum.

​Essa elite burocrática e política não governa para o povo; ela governa para o orçamento. O Fundo Eleitoral bilionário e as emendas parlamentares garantem a perpetuação do poder, enquanto o capital de compadrio blinda os lucros da elite empresarial amiga do rei. O custo disso é a gestão da escassez: gastamos oito vezes mais com a burocracia dos tribunais do que com o saneamento básico que falta a 35 milhões de brasileiros.

​O ponto de ruptura é este: o momento em que o contrato social se rasga porque o povo percebe que a democracia virou uma homologação do poder das castas. A liberdade, no Brasil de hoje, é o luxo de quem ainda consegue sentar debaixo de um coqueiro e, por alguns minutos, esquecer que o Estado — este leviatã de toga e terno — está à espreita, pronto para cobrar o pedágio de uma existência que eles tornaram injusta.
​Ao fim da canção, resta a certeza: se hoje consigo dizer que vivi “do meu jeito”, foi apesar do sistema, e não graças a ele. A verdadeira democracia no Brasil ainda é um sonho que naufragou antes de chegar à praia.

Relacionados

A Viga Mestra e o Silêncio Cúmplice: Crônica do Estado Capturado

Persio Isaac

A Revolução do Algodão-Doce e do Batom

Persio Isaac

O PT: Do Altar Ético ao Pântano do Poder

Persio Isaac

Utilizamos cookies para melhorar a sua experiência no nosso site. Ao utilizar o nosso site, você concorda com os cookies. Aceitar Rejeitar