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2 de fevereiro de 2026
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CRÔNICA DO MAGRÃO

2026: A Ressaca do Futuro no Limiar da Incerteza

O ano de 2026 desponta no horizonte não com o brilho otimista das viradas de década passadas, mas com a névoa densa de uma ressaca global. É como se a humanidade, depois de décadas de euforia tecnológica e de uma polarização política tóxica, acordasse com uma dor de cabeça latejante, sem saber exatamente onde errou, mas sentindo o peso das decisões passadas.

No plano global, o tabuleiro geopolítico se reconfigurou, mas não de forma harmônica. As potências emergem de novas tensões, com alianças fluindo e se desfazendo como areia entre os dedos. A “Guerra Fria 2.0”, que parecia uma metáfora para as disputas de outrora, solidificou-se em blocos econômicos e militares mais definidos, onde a diplomacia, muitas vezes, é apenas a pausa entre a escalada de sanções e ameaças cibernéticas. O Oriente Médio continua a ser o nó górdio, e a Europa, dividida entre a busca por autonomia e a dependência energética, ensaia passos cautelosos em um mundo em que a Rússia e a China consolidaram suas esferas de influência.

​Economicamente, a inflação, aquela besta-fera que pensávamos ter domado no século passado, mostrou-se mais resiliente do que o esperado. As cadeias de suprimentos, ainda convalescentes da pandemia, sofrem com os novos conflitos e com a crescente fragmentação do comércio global. A tecnologia, embora continue a avançar a passos largos – com a inteligência artificial se tornando uma presença quase onipresente em nossas vidas, e a computação quântica prometendo revoluções que ainda mal compreendemos –, trouxe consigo um dilema ético e social. O desemprego estrutural, impulsionado pela automação, gera uma nova classe de “desnecessários”, enquanto o debate sobre a renda básica universal se torna mais urgente do que nunca.

​No Brasil, 2026 parece um eterno déjà-vu. A polarização política, longe de diminuir, encravou-se no DNA social. Não é mais uma disputa de ideias, mas uma guerra cultural onde a verdade é a primeira vítima. As instituições, que em 2024 pareciam estar no leito de morte, agora tentam uma recuperação lenta e dolorosa, mas a confiança popular está em frangalhos. A impunidade, como uma sombra persistente, ainda paira sobre muitos, e a sensação de que “a lei é para todos, menos para alguns” é um veneno que corrói o tecido social.​

O povo brasileiro, exausto das promessas e das decepções, oscila entre a apatia e a indignação. Há um cansaço visível, uma busca por líderes que realmente representem um futuro e não apenas a manutenção de um status quo corrompido. O meio ambiente, apesar das crescentes evidências de crise climática, continua a ser um campo de batalha, onde o desenvolvimento predatório muitas vezes sobrepõe-se à sustentabilidade.

​2026 é, portanto, um ano de transição incerta. Não há grandes euforias à vista, mas também não há a resignação total. É um ano para calibrar as bússolas, para reavaliar as prioridades. A humanidade, e o Brasil em particular, parece estar em um momento de reflexão forçada, onde o passado recente nos cobra um preço alto e o futuro exige escolhas mais conscientes. A ressaca ainda dói, mas talvez seja a dor necessária para que, finalmente, possamos começar a ver com clareza o caminho que realmente queremos trilhar.

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