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Presidente Prudente
31 de agosto de 2026
Oeste Cidade
CRÔNICA DO MAGRÃO

O silêncio dos trilhos esquecidos

O mapa do Brasil guarda coincidências numéricas que escondem abismos econômicos. Rondonópolis, Marília e Presidente Prudente habitam quase o mesmo degrau populacional — uma faixa entre 230 mil e 263 mil habitantes —, todas consagradas como capitais regionais que polarizam dezenas de municípios ao seu redor. No entanto, quando se coloca a balança orçamentária e a tração do desenvolvimento sobre a mesa, o veredito surge límpido e incômodo: Prudente foi a cidade que menos evoluiu no grupo.

​Rondonópolis converteu a poeira vermelha do cerrado na locomotiva das commodities. É o maior entroncamento ferroviário de grãos da América Latina, um ímã de tradings mundiais que faz jorrar uma receita municipal superior a R$ 2,8 bilhões — quase R$ 11 mil por habitante. Marília, por sua vez, ergueu uma fortaleza de valor agregado: aliou a indústria alimentícia pesada a um polo de tecnologia e medicina que alimenta um caixa de R$ 1,9 bilhão (~R$ 7,9 mil por habitante). Já Presidente Prudente permaneceu amarrada a um orçamento de R$ 1,24 bilhão (~R$ 5,3 mil por habitante).

​A razão dessa desaceleração relativa vai além da simples escolha por uma economia baseada no comércio, nos serviços e num formidável polo universitário e médico. O nó cego que estagnou Prudente reside no seu entorno: a tragédia histórica do Pontal do Paranapanema.

​Por décadas, a inoperância de políticas públicas do Governo do Estado de São Paulo deixou o Pontal à deriva. A morosidade na regularização fundiária e a omissão estatal permitiram uma espiral de conflitos no campo e invasões sistemáticas de terras. Essa atmosfera criou um fantasma paralisante: a insegurança jurídica. Investidores, fundos e grandes grupos do agronegócio — que poderiam ter transformado o oeste paulista num polo agroindustrial de ponta, processando grãos, carnes e biocombustíveis — preferiram aportar seus bilhões onde a propriedade da terra era incontestável. Rondonópolis colheu os frutos dessa migração de capital, enquanto Prudente assistia à fuga de oportunidades.

​Para agravar o cenário, a região padece de um vazio de liderança política. Ao contrário de outras regiões do país que travam batalhas institucionais coesas por infraestrutura e incentivos, as forças políticas locais historicamente atuaram de forma fragmentada, vaidosa e sem articulação em torno de um projeto de estado. Faltou a construção de uma agenda suprapartidária capaz de exigir do Palácio dos Bandeirantes a pacificação definitiva do campo, a atração de malhas logísticas e a industrialização do Pontal.

​Somou-se a isso a posição geográfica de “ponta de trilho” no extremo oeste e a inevitável evasão de cérebros: jovens brilhantes formados nas academias prudentinas que migram por ausência de um mercado corporativo denso. Enquanto Rondonópolis tomou o controle da logística agrícola nacional e Marília dominou a transformação industrial, Presidente Prudente ficou encarregada de gerir a saúde e a educação de uma região inteira com metade do caixa de suas irmãs de tamanho. Ficou para trás não por falta de vocação ou civilidade, mas porque o capital foge da incerteza jurídica — e a política local nunca se uniu para construir as pontes que o progresso exigia.

Outra questão importante mostra que, pela primeira vez desde 2002, a Região Administrativa de Araçatuba superou a de Presidente Prudente no PIB. Em 2025, Araçatuba alcançou R$ 44,4 bilhões, contra R$ 42,6 bilhões de Prudente, uma diferença de R$ 1,8 bilhão. O resultado acende um sinal de atenção para a economia prudentina e mostra que Araçatuba vem ganhando espaço no cenário econômico do interior paulista.

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