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5 de setembro de 2026
Oeste Cidade
CRÔNICA DO MAGRÃO

Arquibancada de São Tomé

A história é especialista em pregar peças. Pegaram Tomé, um homem que apenas exigiu o peso da matéria para confirmar o invisível, e o transformaram no padroeiro do conformismo brasileiro. Hoje, o “só acredito vendo” deixou de ser um exercício saudável de ceticismo para se tornar a desculpa mais confortável que a passividade conseguiu inventar.

Vê-se a imagem de autoridades rindo à custa do erário, assiste-se ao banquete dos escândalos do andar de cima e a resposta da plateia é um dar de ombros gourmetizado: “Não adianta nada, só acredito vendo”. É uma elegância triste, uma espécie de arrogância do derrotado. O sujeito cruza os braços, senta-se na arquibancada da própria existência e exige que a história dê piruetas para convencê-lo a se levantar. Espera que a ética brote do asfalto, que a justiça desça como maná e que a honestidade dos poderosos aconteça por revelação divina.

​Mas nada no mundo real funciona por aparição ​Quem se agarra à postura de São Tomé esquece o básico: a realidade não é um espetáculo de ilusionismo em que o público só paga o ingresso depois que a pomba sai da cartola. A história é obra de pedreiro, não de mágico. Cada direito trabalhista, cada centímetro de liberdade, cada garantia constitucional que hoje permite ao cidadão reclinar a cadeira e reclamar no celular foi conquistado sob suor, barulho e confronto.

Nada foi concedido porque alguém achou bonito; foi tomado porque se tornou inevitável.​ Geraldo Vandré avisou há décadas, mas parece que o país prefere a anestesia: quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

Esperar o cenário perfeito para começar a cobrar, a protestar ou a ocupar os espaços de decisão é entregar o controle do jogo justamente para quem está sorrindo na foto. Para o poder aparelhado, não há nada mais conveniente do que um povo convertido ao “sãotomeísmo”: um eleitorado que não incomoda, não fiscaliza, não se organiza e que justifica sua imobilidade sob o disfarce de um ceticismo superior.

​O ceticismo sem ação não é inteligência; é preguiça fantasiada de lucidez. É fácil lavar as mãos e dizer que nada muda enquanto se assiste ao circo pegar fogo do sofá de casa. O difícil — e o único caminho real — é entender que as coisas só passam a existir porque alguém teve a audácia de empurrá-las para fora da inércia. Se ficarmos todos esperando para ver para depois crer, continuaremos vendo exatamente o mesmo de sempre: eles rindo lá em cima, e nós pagando a conta aqui embaixo.

“Dizem que o mundo fica mais bonito quando neva, mas não há neve no Brasil — e continuar esperando pelo frio ideal só serve para deixar a nossa terra queimar.”

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