Sentados à mesa do poder, os convivas se reúnem. São togados, mandatários e financistas, reunidos não por fraternidade, mas pela cola viscosa da reciprocidade. O banquete é vasto e, sob as luzes frias de Brasília, cada prato que desce é uma rubrica de escândalo, um atestado de impunidade cozido a fogo lento.
A mão invisível que serve é a do esquema: uma coreografia ensaiada entre gabinetes e plenários, onde a Vaidade é o amuse-bouche.
Ele chega com o brilho enganoso das manchetes favoráveis, dos discursos eloquentes e das sentenças midiáticas. É o prato que promete glória pessoal — seja a do legislador que se corrompe por influência ou a do juiz que se sente deus por conveniência. O sabor, todavia, é vazio, deixando apenas a sede insaciável por mais poder.
Em seguida, o Desejo — sempre o mais perigoso — surge como um doce envenenado. É a promessa irresistível do acobertamento financeiro, do sigilo eterno, da absolvição técnica. Ele alimenta o vazio da ambição, garantindo que bilhões desviados possam ser digeridos em paz, longe dos olhos famintos da opinião pública. A liturgia do cargo vira o guardanapo que limpa a boca suja de negacionismo.
Mas o prato principal, o mais temido, é a Culpa, que o judiciário militante decide servir a conta-gotas. No centro desse tribunal mascarado de banquete, a culpa não é mastigada por todos; é engolida à força por aqueles que perdem a proteção política, enquanto outros a usam como arma.
O Supremo Tribunal Federal, ao invés de ser o espelho frio e imparcial do salão, se transforma no garçom que decide quem come e quem apenas assiste. Os desmandos da corte, muitas vezes com viés ideológico ou político, são o tempero ácido que distorce o sabor da Justiça. A toga, antes símbolo de isenção, agora veste o cozinheiro que dita o menu, dando péssimos exemplos de como a lei é flexível para os amigos e rígida para os inimigos.
No reflexo dessa orgia de poder, o Brasil se vê de joelhos. O banquete se revela um conluio, onde a Redenção não é um prato oferecido, mas uma miragem. A grande tragédia não é a inevitabilidade das consequências, mas a seletividade com que elas são servidas.
Alguns dos convivas, seguros em sua cegueira togada ou parlamentar, tentam saborear mais, certos de que a imunidade de cargo lhes dará o conforto da negação eterna. Eles ignoram que, fora daquele salão pomposo, a fome e a lição já esperam. O banquete das consequências é inevitável, sim, mas para a nação, ele é indigesto. A única sabedoria que resta ao povo é a de exigir que, para além da lição individual, haja finalmente a purificação do paladar coletivo.



