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2 de fevereiro de 2026
Oeste Cidade
CRÔNICA DO MAGRÃO

​O Custo da Confiança Perdida: Déficit, Gastos e a Sentença da Selic.

A taxa de juros no Brasil não é apenas uma ferramenta técnica; é o termômetro da confiança do mercado na capacidade do Estado de pagar suas contas. E na análise dessa febre crônica, o histórico fiscal dos governos do Partido dos Trabalhadores (PT) é um capítulo que exige uma leitura atenta e desapaixonada.
​O diagnóstico é direto: a irresponsabilidade fiscal — o ato de gastar sistematicamente mais do que se arrecada — é o combustível primário da nossa alta taxa Selic. Mas, ao olharmos para os períodos de gestão do PT (2003-2016 e, mais recentemente, a partir de 2023), notamos um padrão de políticas que, em momentos cruciais, forçou esse termômetro ao limite.

​O Desvio da Rota Fiscal

​O primeiro governo Lula (2003-2006) foi marcado por uma adesão inicial à ortodoxia fiscal, herdada e reforçada pelo então Ministro da Fazenda e Presidente do Banco Central. A manutenção de um superávit primário robusto — a economia feita para pagar os juros da dívida — foi a base da redução do risco-país e do início da queda dos juros.
​O problema central se manifesta quando a convicção fiscal cede espaço à tentação da expansão. Foi na segunda metade desse ciclo que se observou um enfraquecimento gradual das âncoras fiscais. A estratégia de usar a máquina pública como motor de crescimento, especialmente via expansão de gastos obrigatórios e políticas de subsídios e desonerações (muitas vezes fora do Orçamento), começou a minar a solidez fiscal.
​O ápice dessa derrocada se deu durante o segundo mandato de Dilma Rousseff, com as tristemente célebres “pedaladas fiscais” e a perda completa da credibilidade. O governo trocou o superávit pelo déficit primário persistente, iniciando uma sequência de rombos nas contas públicas que se estende por quase uma década, até o presente.

​O Novo Ciclo da Indisciplina (A Partir de 2023)

​O retorno do PT em 2023 trouxe consigo o diagnóstico de que o Estado precisava ser reativado pelo gasto, muitas vezes ignorando as restrições fiscais. A aprovação da PEC da Transição no início do mandato, que abriu um espaço fiscal extra de mais de R$ 170 bilhões, e os gastos extraordinários recorrentes desde então (que somam centenas de bilhões), acenderam um farol vermelho no mercado.
​O novo Arcabouço Fiscal, criado para substituir o Teto de Gastos, foi imediatamente questionado. Seu principal problema, segundo os críticos, é ser uma regra de despesa mais flexível que permite um crescimento real do gasto público, mesmo que a arrecadação não acompanhe na mesma proporção. Na prática, ele legitima o aumento contínuo da dívida.
​O Recado do Mercado: Quando o governo demonstra dificuldade ou pouca vontade política para cortar despesas e buscar superávits, a expectativa é uma só: o endividamento futuro será maior.

​A Sentença da Selic

​É aqui que a taxa de juros entra como o juiz implacável.
​A Dívida Crescente: Os déficits fiscais (gastar mais do que se arrecada) elevam o estoque da dívida pública.
​O Risco Percebido: O mercado, ao ver essa trajetória insustentável (com a dívida bruta em percentual do PIB crescendo e projetando-se para ultrapassar os 80%), exige um prêmio de risco maior para continuar emprestando ao governo.
​A Resposta do BC: O Banco Central é forçado a manter a Selic em patamares elevados não apenas para combater a inflação de demanda (pressão do excesso de dinheiro no bolso), mas, crucialmente, para combater a inflação de expectativas — ou seja, a desconfiança sobre o futuro fiscal.
​O resultado dessa política é perverso: a cada ponto percentual que a Selic sobe, o custo do serviço da dívida aumenta em dezenas de bilhões de reais (como R$ 55 bilhões por 1% de alta, segundo algumas estimativas), drenando recursos que poderiam ser investidos em educação, saúde e infraestrutura.
​Em resumo, os juros altos no Brasil não são um capricho do Banco Central, mas a sentença econômica aplicada ao governo pela sua irresponsabilidade fiscal. Enquanto a palavra de ordem for “gastar”, sem a contrapartida da disciplina e do equilíbrio nas contas públicas, a Selic continuará sendo o guardião caro que impede o naufrágio do país, à custa do crescimento e do bolso de cada cidadão.
​A crônica agora incorpora a crítica direcionada à política fiscal do PT, especialmente no que tange aos déficits e à erosão da credibilidade das regras fiscais.

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