A ameaça de prisão do ex-presidente Bolsonaro na Papuda não é um simples episódio jurídico — é, antes de tudo, um recado explícito a qualquer um que ouse confrontar o sistema que domina o país.
O artigo de Fábio Wajngarten, “Prisão de Bolsonaro é injustiça que corrói”, aponta algo que dói constatar: “um homem honesto, com mais de 40 anos de carreira irretocável, passe a conviver com criminosos de toda ordem na Papuda.”
Já o meu amigo Pérsio, em “O espelho sombrio da História”, lembra com precisão que “a Justiça, para ser ética, precisa ser cega e severa com todos. Caso contrário, ela se transforma em um instrumento de guerra política, onde a ‘desobediência atroz’ não é cometida por aqueles que questionam, mas sim por aqueles que aplicam a lei de forma seletiva.”
Essas reflexões traduzem o risco que estamos vivendo: uma democracia que, manipulada, começa a deixar de ser democracia. Quando a toga passa a agir movida pela ideologia e não pelos limites constitucionais, o direito deixa de ser instrumento de justiça e se torna ferramenta de intimidação.
A forma como o processo contra Bolsonaro foi construído e conduzido não apenas extrapola garantias fundamentais — ela inaugura um precedente ameaçador contra qualquer voz que se coloque fora do jogo do poder. Não é a defesa da democracia que se vê, mas a defesa de uma estrutura que usa a democracia como verniz.
É preciso compreender que a lei não existe para servir interesses de grupos, ideologias ou conveniências. Ela deve proteger inclusive — e principalmente — o adversário político. Quando o Estado escolhe alvos em vez de aplicar regras, deixa de ser Estado de Direito e passa a ser um aparelho de perseguição.
Hoje, o Brasil vive à sombra do próprio direito. Luzes acesas no discurso; trevas acentuadas na prática. E, se essa inversão continuar, ninguém estará protegido. Mais cedo ou mais tarde, todos seremos atingidos pelo mesmo mecanismo que hoje muitos fingem não ver.
Adolfo Padilha


