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3 de fevereiro de 2026
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CRÔNICA DO MAGRÃO

Ulisses e o Canto das Sereias Democráticas

​Há dez anos, Ulisses partia de Troia, vitorioso, rumo à sua Ítaca. Dez anos de mares revoltos, monstros, deuses caprichosos e os cantos sedutores das sereias, que prometiam esquecimento em troca da renúncia à sua jornada. Ulisses, o astuto, o resistente, só queria voltar para casa, para a sua família, para a terra que reconhecia como sua. Sua Odisséia, para muitos, é um épico de aventura. Para nós, brasileiros, é um espelho.

​Quem é Ulisses, senão o povo brasileiro? Um povo que, há décadas, trava sua própria e interminável odisséia em busca de uma Ítaca democrática. Vencemos “Troias” — as ditaduras, os autoritarismos — e acreditamos que o caminho para casa seria direto e recompensador. Mas, tal qual o herói grego, fomos lançados em mares revoltos. Não por ciclopes ou deuses, mas por sistemas que se corrompem, por poderes que se esquecem de quem os elegeu e por sereias que cantam promessas vazias, convidando ao sono cívico.

​As sereias da nossa “democracia” não têm caudas de peixe, mas vozes poderosas que emergem de palanques e telas. Elas cantam o hino da esperança a cada eleição, prometem portos seguros, ilhas de prosperidade e o fim das tormentas. E o povo-Ulisses, amarrado ao mastro da crença em um futuro melhor, resiste, obstinado. Mas a cada promessa não cumprida, a cada escândalo desvelado, a cada direito cerceado, o nó da esperança aperta, e o desejo de simplesmente “voltar para casa” – para um lugar de paz, justiça e previsibilidade – se intensifica.

​Nossa Ítaca, a democracia plena, parece sempre um horizonte distante. Ulisses, ao retornar, encontrou seu lar tomado por pretendentes que pilhavam seu patrimônio e desrespeitavam sua família. Não é essa a imagem que muitos brasileiros têm de sua própria nação? Um lar saqueado por interesses escusos, por uma burocracia que nos oprime e por figuras que se autoproclamam donas do banquete, enquanto o verdadeiro dono, o povo, é tratado como um mendigo à própria porta.

​A esperança, para nós, brasileiros, é como Penélope, que tecia e desmanchava o sudário à espera do marido. Nós tecemos, a cada voto, a cada manifestação, a cada crítica construtiva, o tecido da nossa nação. E o desmanchamos, desiludidos, a cada traição, a cada golpe disfarçado, a cada demonstração de que a justiça não é cega, mas seletiva.

​Ainda assim, como Ulisses, não desistimos. A astúcia do brasileiro, sua resiliência e sua capacidade de adaptação são o seu bote salva-vidas. Enfrentamos o escila e o caribdis da polarização, as ilhas de lótus do conformismo e os feitiços de Circe que transformam cidadãos em gado. A Odisséia continua. E, mesmo que o caminho seja árduo e a chegada incerta, a chama de Ítaca – a verdadeira democracia, onde a justiça é para todos e a esperança não é uma miragem – continua a guiar o nosso Ulisses coletivo. Porque, no fundo, todo brasileiro sabe que sua casa o espera, e que nenhum canto de sereia será forte o bastante para fazê-lo esquecer o caminho de volta

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