O despertador toca em um subúrbio de São Paulo ou em um bairro planejado de Curitiba. Não importa onde você esteja, a primeira sensação é o peso do Leviatã Brasileiro. Ele é um monstro ineficiente que te pede 150 dias de trabalho por ano apenas em impostos, prometendo uma segurança que não vem e uma justiça que, como diz o ditado, só enxerga o “preto, pobre e operário”. Mas o Leviatã brasileiro é, no fundo, um capataz de luxo.
Enquanto você toma seu café, a Hidra de François Morin sorri através dos aplicativos no seu celular. No Brasil, a Hidra tem rostos específicos que dominam o território com uma força que o JPMorgan invejaria. Aqui, o oligopólio global se aperta em um nó ainda mais fechado: o suor do seu trabalho flui diretamente para os cofres do Itaú, Bradesco e Santander.
Você entra no ônibus ou no carro financiado. O asfalto está esburacado e a escola do seu filho pede socorro. Você se pergunta: “Para onde vai o meu imposto?”. A resposta é o segredo mais sujo do Estado: quase metade do orçamento federal não vai para saúde ou educação, mas para o “serviço da dívida”. O Leviatã brasileiro está acorrentado. Ele é o maior devedor da Hidra. Ele sequestra o fruto do seu trabalho honesto e o entrega, em bandejas de prata, para os rentistas que controlam a Selic e o câmbio.
A democracia brasileira é a vitrine desse grande engenho. De quatro em quatro anos, somos convidados a escolher o “gerente” do Leviatã. Mas, assim que as luzes da festa da posse se apagam, o novo gerente corre para o escritório dos donos do dinheiro. Ele precisa acalmar o “Mercado” — esse deus invisível composto pelo BTG Pactual, Goldman Sachs e Citigroup. Se a Hidra não for alimentada com juros altos e isenções fiscais, ela aperta o pescoço do país, a inflação sobe e o governo cai.
O sistema judiciário completa a engrenagem. É um teatro de formalidades onde o pequeno empreendedor é esmagado por uma dívida impagável em semanas, enquanto os grandes escândalos financeiros de “erros contábeis” bilionários são tratados com a lentidão dos deuses. A justiça brasileira protege o contrato da Hidra antes de proteger o direito do cidadão.
Você volta para casa exausto, sentindo o peso de uma “paz” que parece uma derrota silenciosa. Você acredita que é um cidadão livre porque pode votar, mas na lógica de Morin, você é um arrendatário de si mesmo. O Brasil não é uma nação que tem bancos; o Brasil é um território que pertence a um oligopólio.
No fim da noite, você apaga a luz. O Leviatã continua burocrático e corrupto, e a Hidra continua sugando o seu tempo através de juros que não existem em nenhum outro lugar do mundo. Você dorme o sono dos iludidos, enquanto o seu saldo negativo financia o próximo bônus de um executivo na Faria Lima ou em Wall Street. O sistema só é invencível enquanto acreditamos que ele é necessário. No momento em que o cidadão entende a engrenagem, a Hidra perde sua força e o Leviatã é forçado a voltar para o seu lugar: o de servo, e não de senhor, da sociedade. A democracia deixa de ser um teatro de sombras e o “trabalho honesto” volta a ter valor, pois o fruto do seu suor não será mais sequestrado por um algoritmo bancário e muito menos para financiar um Estado caro e corrupto, antes mesmo de chegar à sua mesa.


