Quem caminha hoje pelas ruas da nossa amada aldeia em fevereiro mal consegue ouvir o eco dos surdos e tamborins que, um dia, fizeram o asfalto desta aldeia tremer. Para quem viveu o auge, a sensação é de que o calendário parou em uma eterna quarta-feira de cinzas. O confete desbotou, a serpentina mofou no armário e o que restou foi a saudade de um tempo em que a alegria não pedia licença para ocupar a cidade. Mais de 25 mil pessoas se aglomeravam nas ruas para assistir os desfiles das Escolas de Samba. O gênio Joãozinho Trinta disse a lendária frase que ainda ecoa além da compreensão dos tolos: “POBRE GOSTA DE LUXO. QUEM GOSTA DE MISÉRIA É O INTELECTUAL”.
Houve uma era, que hoje parece ficção para os mais jovens, em que nossa amada aldeia ostentava um luxo de metrópole no Carnaval. A nossa “geração de ouro” não brincava em serviço. Nos salões, a disputa era de elegância e euforia. O Tênis Clube, a Prudentina e o Ipanema eram verdadeiros templos de resistência da folia. Os sócios não iam apenas para dançar; iam para representar uma identidade, para viver o ápice de um convívio social que se perdia nas marchinhas e nos bailes que varavam a madrugada sob o brilho dos lustres.
Mas era na rua que o povo escrevia sua epopeia. Antes de ser um reduto de prédios e condomínios, a cidade era o terreiro das grandes escolas. Como esquecer o pioneirismo do Acadêmicos do Bosque, sob a batuta de Thomás, o lateral-esquerdo da Prudentina que trocou as chuteiras pela cadência do samba? Ele lançou as sementes para que gigantes surgissem.
A avenida se transformava. Vinham os Malacos do Tênis, com a força de sua elegância e tradição; a Unidos do Jardim Paulista, a garra da Independente da Zona Leste, o charme da Vila Dubos e o brilho inconfundível da Bico de Ouro. Eram desfiles luxuosos, criatividade pura brotando da escassez, onde ritmistas e carnavalescos se tornavam engenheiros de sonhos por quatro noites. No centro de tudo isso, a figura lendária de Sombrinha — mais que um homem, um símbolo; o mestre de cerimônias de uma alegria que parecia não ter fim.
Hoje, o cenário é de um realismo melancólico. Aquela geração de ouro deu lugar a um vazio institucional. Os clubes de salão silenciaram seus metais, transformando-se em espaços de outros eventos, esquecendo a vocação para a folia. As escolas de samba, outrora orgulhosas e independentes, tornaram-se dependentes das migalhas e das burocracias do poder público. Sem fomento, sem o calor dos sócios e sem a renovação da paixão, o Carnaval prudentino tornou-se um “arremedo”, uma sombra pálida do que já foi.
Viver o Carnaval em Prudente hoje é buscar um fantasma. É passar pela avenida e, por um segundo, fechar os olhos para tentar ouvir o apito do mestre de bateria que já partiu. Ficamos nós, os veteranos dessa grande festa, observando o asfalto limpo e silencioso, lembrando que nesta aldeia o samba já foi rei, mas hoje, infelizmente, dorme o sono profundo de quem não tem mais quem o acorde. Salve os carnavalesco de outrora.



