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20 de maio de 2026
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CRÔNICA DO MAGRÃO

O Preço do Voto na Gaveta das Chuteiras

​Dizem que o brasileiro ama o futebol acima de tudo, mas a verdade é que o brasileiro ama ter razão acima de qualquer esporte. Quando a lista da Copa do Mundo é anunciada e o nome de Neymar Jr. ecoa pelos alto-falantes, o país não discute mais a sua capacidade de quebrar linhas ou o drible curto que humilha zagueiros europeus. O que se discute, com uma fúria quase religiosa, é o voto.

​A mistura sem sentido entre o cidadão e o atleta virou a regra de um jogo doentio. No instante em que Neymar decidiu se posicionar politicamente e declarar apoio a Jair Bolsonaro nas eleições, uma chave virou na cabeça de uma parcela barulhenta da opinião pública. O maior talento dos últimos vinte anos do futebol brasileiro foi sumariamente rebaixado de patrimônio esportivo a alvo de uma lacração ideológica implacável.

​Reduzir a genialidade de um artista ao seu voto é o sintoma mais claro de uma sociedade adoecida pelo excesso de política e pela escassez de lirismo.

​Da Quadra de Cascalho ao Tribunal de Cerveja Gourmet

​O paradoxo dessa cobrança beira o absurdo quando olhamos para trás. Neymar foi um menino que cresceu na periferia de São Vicente, correndo descalço em quadras de cascalho, driblando a pobreza e a falta de perspectiva com a única ferramenta que o destino lhe deu: o talento bruto nos pés. Ele passou a juventude inteira confinado dentro de quatro linhas, focado em aprender como colocar uma bola no ângulo, não em decifrar as nuances da geopolítica ou as correntes filosóficas do debate público.
​De repente, esse mesmo menino vira um homem e descobre que a mesma elite intelectual que toma cerveja artesanal e discute sociologia no Twitter exige dele a postura de um diplomata de Harvard.
​Cobram de Neymar uma pureza ideológica e uma erudição política que ele nunca prometeu entregar. Exige-se que o jogador de futebol seja um cientista político perfeito, um farol de moralidade e um bastião da virtude social. Esquecem-se de que ele foi tirado do anonimato justamente porque sabia fazer com a bola o que ninguém mais conseguia. Pedir coerência doutrinária a quem viveu para nos dar alegria nos gramados é, no mínimo, de uma hipocrisia covarde.

​Talento é Talento (E a Bola Não Tem Partido)

​A verdade nua e crua, que a lacração tenta sufocar a todo custo, é que o retângulo verde é agnóstico. A bola não tem viés ideológico, não escolhe espectro político e não se importa com o título de eleitor de quem a chuta. Quando Neymar arranca do meio-campo, limpa três marcadores e serve o atacante de trivela, ali não há esquerda ou direita. Há apenas arte. Há apenas o futebol brasileiro em sua expressão mais pura, aquela que o mundo inteiro inveja.

​Trata-se de uma miopia coletiva. Mistura-se a esfera privada do voto de um cidadão — direito sagrado em qualquer democracia, concorde-se ou não com a escolha — com a entrega técnica de um profissional que, quando veste a Amarelinha, só deve satisfações à bola.

​A história do nosso futebol é pavimentada por personagens complexos, controversos e cheios de imperfeições fora de campo. Romário, Renato Gaúcho, Edmundo… nenhum deles era santo. Mas o Brasil sempre soube perdoar as falhas humanas em nome da genialidade divina com a bola. Hoje, a polarização roubou de nós essa generosidade.

​Neymar vai para a Copa carregando o peso de um país que, muitas vezes, torce contra si mesmo apenas para ver o “personagem político” falhar. Uma pena para os que se apegam ao rancor. No fim das contas, a lacração passa, os tuítes somem no arquivo morto da internet, os governos mudam… mas o gol de placa fica eterno. Quem escolhe odiar o craque por causa do voto perde o direito de testemunhar a história sendo escrita diante dos próprios olhos. Porque, queiram ou não, talento é talento. E isso nenhuma ideologia é capaz de anular.

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