Dizem que o brasileiro ama o futebol acima de tudo, mas a verdade é que o brasileiro ama ter razão acima de qualquer esporte. Quando a lista da Copa do Mundo é anunciada e o nome de Neymar Jr. ecoa pelos alto-falantes, o país não discute mais a sua capacidade de quebrar linhas ou o drible curto que humilha zagueiros europeus. O que se discute, com uma fúria quase religiosa, é o voto.
A mistura sem sentido entre o cidadão e o atleta virou a regra de um jogo doentio. No instante em que Neymar decidiu se posicionar politicamente e declarar apoio a Jair Bolsonaro nas eleições, uma chave virou na cabeça de uma parcela barulhenta da opinião pública. O maior talento dos últimos vinte anos do futebol brasileiro foi sumariamente rebaixado de patrimônio esportivo a alvo de uma lacração ideológica implacável.
Reduzir a genialidade de um artista ao seu voto é o sintoma mais claro de uma sociedade adoecida pelo excesso de política e pela escassez de lirismo.
Da Quadra de Cascalho ao Tribunal de Cerveja Gourmet
O paradoxo dessa cobrança beira o absurdo quando olhamos para trás. Neymar foi um menino que cresceu na periferia de São Vicente, correndo descalço em quadras de cascalho, driblando a pobreza e a falta de perspectiva com a única ferramenta que o destino lhe deu: o talento bruto nos pés. Ele passou a juventude inteira confinado dentro de quatro linhas, focado em aprender como colocar uma bola no ângulo, não em decifrar as nuances da geopolítica ou as correntes filosóficas do debate público.
De repente, esse mesmo menino vira um homem e descobre que a mesma elite intelectual que toma cerveja artesanal e discute sociologia no Twitter exige dele a postura de um diplomata de Harvard.
Cobram de Neymar uma pureza ideológica e uma erudição política que ele nunca prometeu entregar. Exige-se que o jogador de futebol seja um cientista político perfeito, um farol de moralidade e um bastião da virtude social. Esquecem-se de que ele foi tirado do anonimato justamente porque sabia fazer com a bola o que ninguém mais conseguia. Pedir coerência doutrinária a quem viveu para nos dar alegria nos gramados é, no mínimo, de uma hipocrisia covarde.
Talento é Talento (E a Bola Não Tem Partido)
A verdade nua e crua, que a lacração tenta sufocar a todo custo, é que o retângulo verde é agnóstico. A bola não tem viés ideológico, não escolhe espectro político e não se importa com o título de eleitor de quem a chuta. Quando Neymar arranca do meio-campo, limpa três marcadores e serve o atacante de trivela, ali não há esquerda ou direita. Há apenas arte. Há apenas o futebol brasileiro em sua expressão mais pura, aquela que o mundo inteiro inveja.
Trata-se de uma miopia coletiva. Mistura-se a esfera privada do voto de um cidadão — direito sagrado em qualquer democracia, concorde-se ou não com a escolha — com a entrega técnica de um profissional que, quando veste a Amarelinha, só deve satisfações à bola.
A história do nosso futebol é pavimentada por personagens complexos, controversos e cheios de imperfeições fora de campo. Romário, Renato Gaúcho, Edmundo… nenhum deles era santo. Mas o Brasil sempre soube perdoar as falhas humanas em nome da genialidade divina com a bola. Hoje, a polarização roubou de nós essa generosidade.
Neymar vai para a Copa carregando o peso de um país que, muitas vezes, torce contra si mesmo apenas para ver o “personagem político” falhar. Uma pena para os que se apegam ao rancor. No fim das contas, a lacração passa, os tuítes somem no arquivo morto da internet, os governos mudam… mas o gol de placa fica eterno. Quem escolhe odiar o craque por causa do voto perde o direito de testemunhar a história sendo escrita diante dos próprios olhos. Porque, queiram ou não, talento é talento. E isso nenhuma ideologia é capaz de anular.



