O Carnaval nasceu da desordem necessária. Lá atrás, nas festas gregas e romanas, a graça estava em virar o mundo de cabeça para baixo: o escravo jantava com o senhor e o bobo da corte vestia a coroa. Era o respiro de uma sociedade que precisava da loucura para suportar a regra. No Brasil, essa essência ganhou o couro do tambor e o suor da periferia, transformando o “entrudo” violento em uma ópera popular que, por décadas, foi caso de polícia.
Mas o tempo passou e o asfalto cobrou seu preço. O que era ocupação urbana virou o maior espetáculo audiovisual do planeta, um colosso de alta definição onde o luxo das plumas esconde, muitas vezes, o pragmatismo dos gabinetes. O Carnaval elitizou-se; as arquibancadas ficaram caras e os enredos, antes puramente biográficos ou folclóricos, descobriram o poder do palanque.
A passarela, hoje, parece sofrer de uma miopia conveniente. Onde antes havia a sátira democrática que não poupava ninguém, hoje vemos a consolidação de um “palanque seletivo”. O espetáculo tornou-se uma ferramenta de conveniência política, onde a crítica é ácida para uns e a exaltação é hagiográfica para outros.
O cenário de 2026 desenha bem esse novo mapa. Quando uma escola de samba decide transformar a trajetória de um presidente em exercício em enredo de desfile — financiado, direta ou indiretamente, pelo bolso do contribuinte — a linha entre a “liberdade artística” e a “propaganda antecipada” torna-se tão fina quanto uma linha de pesca.
O que se observa é um desequilíbrio que ecoa fora da avenida. A dita esquerda parece gozar de um salvo-conduto poético onde “tudo pode” sob o manto da cultura. Enquanto isso, as instituições de controle, como o STF e a Justiça Eleitoral, parecem flutuar conforme o vento das conveniências. O rigor que se aplica a um lado para evitar o “desequilíbrio do pleito” muitas vezes se transforma em “respeito à expressão” quando o homenageado ocupa a cadeira certa.
A Justiça, que deveria ser o mestre-sala a guiar o desfile com neutralidade, por vezes parece querer ditar o ritmo da bateria de acordo com a ideologia do momento. O Carnaval, que deveria suspender a ordem do mundo, acabou sendo engolido por ela. Agora, o enredo não é apenas sobre o retirante ou o operário; é sobre como a maior festa popular do mundo tornou-se um capítulo acessório do direito eleitoral, onde o veredito final não sai mais da cabine dos jurados na Apoteose, mas dos plenários de Brasília.
No fim, a pergunta que fica na quarta-feira de cinzas é: quem ainda é o rei e quem ainda é o bobo nesse espetáculo de cartas marcadas?



