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Presidente Prudente
27 de fevereiro de 2026
Oeste Cidade
CRÔNICA DO MAGRÃO

O fantasma dos gigantes e a cidade que encolheu o olhar

​Presidente Prudente nasceu do conflito e da audácia. Entre a terra roxa e a poeira da Estrada de Ferro Sorocabana, os coronéis Goulart e Marcondes não fundaram apenas uma cidade; eles estabeleceram uma cultura de expansão. Era o tempo em que a política era feita por tratores, e não por planilhas de zeladoria.

​Avance para os anos 80 e 90, e a cidade encontra seus últimos “visionários empreendedores”. Paulo Constantino desenhou as veias da cidade moderna, estruturando o que hoje chamamos de centro. Agripino Lima, com uma mão de ferro e um olhar que enxergava duas décadas adiante, ergueu o Hospital Regional (o antigo HU) e a Cidade da Criança quando todos diziam ser loucura. Ele não construía apenas prédios; ele forjava a vocação de Prudente como o grande útero de saúde e educação do Oeste Paulista.

​Mas, em 2026, o que resta desse ímpeto? O que vemos é a era dos “zeladores de luxo”. A política local sofre de uma miopia crônica: celebra-se o recapeamento de uma avenida ou a poda de uma praça como se fossem feitos heróicos, quando são apenas o dever de casa atrasado. A morte desses “prefeitos-empreendedores” deixou um vácuo de liderança que ninguém conseguiu preencher. Hoje, a política prudentina é um exercício de enxugar gelo: gasta-se 53% da receita com a máquina pública, e o que sobra é usado para tentar consertar um Parque do Povo que transborda a cada chuva, prova viva de que a engenharia da cidade parou no século passado.

​A Divisão dos Muros e o Vazio da Especulação

​Socialmente, Prudente é uma cidade de contrastes que gritam. De um lado, a Zona Sul, uma bolha de condomínios murados que se expande para além do limite da vista, criando guetos de prosperidade isolados do resto da malha urbana. Do outro, os vazios urbanos estratégicos: terrenos imensos no coração da cidade, cercados por cercas de arame, mantidos por famílias tradicionais que esperam a valorização enquanto o cidadão comum é empurrado para periferias cada vez mais áridas.

​A cidade cresce “esparramada”, encarecendo a própria existência. É um modelo insustentável: mais asfalto para poucos, menos transporte para muitos. A falta de um Projeto Regional de Desenvolvimento

Sustentável isola Prudente. Enquanto outras regiões do estado criam consórcios de inovação, o Oeste Paulista parece um arquipélago, onde cada prefeito luta por uma emenda parlamentar para sua própria paróquia, sem entender que, sem a região, a cidade definha.

​Qual a Vocação de 2026?

​Afinal, para que serve Presidente Prudente hoje? Ela não é mais a capital do boi no pasto, e a indústria que Marília soube segurar, aqui nunca criou raízes profundas. A vocação real de Prudente em 2026 é ser o “Cérebro de Serviços do Interior”.

​Ouro Digital: Sua força está nos 40 mil universitários e nos pesquisadores da Inova Prudente. O futuro não é o couro, é o software aplicado ao agro.
​O Hospital do Oeste: Sua economia respira através dos aparelhos dos seus hospitais de ponta.

​No entanto, o dinamismo político para transformar essa vocação em um Hub Logístico e Tecnológico está ausente. A classe empresarial, muitas vezes acomodada com o lucro seguro da especulação imobiliária, assiste à política “feijão com arroz” sem exigir o prato principal.

​O Veredito: A Locomotiva que Virou Vagão

​Prudente é uma locomotiva que desaprendeu a trilhar o futuro. No final da tarde, sob o sol roxo do Oeste — o mais bonito e o mais quente do estado — a cidade suspira. Ela sabe que tem o DNA de gigante, mas sente o peso das correntes de uma política pequena.

​O futuro de Presidente Prudente em 2030 depende de um divórcio: o divórcio entre a gestão de zeladoria e a visão de estado. Se a cidade não encontrar novos “Agripinos” e “Constantinos” — desta vez com mentalidade sustentável e tecnológica — ela continuará sendo uma bela capital regional que, apesar de todo o seu potencial, vive de glórias passadas enquanto limpa o asfalto das chuvas de ontem.

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