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27 de fevereiro de 2026
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CRÔNICA DO MAGRÃO

O Trilhão Revisitado: A Crônica de um País Refém da própria Matemática

​A história das contas públicas no Brasil assemelha-se a um épico de erros repetidos, onde a bonança é tratada como eterna e a austeridade como um vilão a ser evitado a qualquer custo. Ao olharmos para o retrovisor, percebemos que a trajetória da dívida pública não é um acidente, mas o resultado de um modelo que se especializou em transferir a riqueza gerada pelo suor da população diretamente para os cofres do sistema financeiro. No passado, entre 2003 e 2010, o Brasil surfou no boom das commodities, o que permitiu uma queda real da dívida em relação ao PIB, saindo de patamares perigosos para uma estabilidade que foi lida equivocadamente como um cheque em branco. O governo Dilma herdou essa calmaria, mas a tempestade começou quando a filosofia do gasto público desenfreado, mascarada por subsídios e desonerações sem critério, fez a dívida saltar mais de dez pontos percentuais em apenas dois anos, culminando em uma crise que forçou uma troca de comando. O governo Temer tentou estancar o sangramento com o Teto de Gastos, mas a inércia dos juros manteve a marcha ascendente. Após o abismo da pandemia no governo Bolsonaro, que elevou o endividamento a recordes para evitar o colapso social, o país ensaiou uma recuperação, fechando 2022 com a dívida em queda, próxima de 73% do PIB, favorecida pela inflação que inflou o PIB nominal e pela contenção temporária de despesas.

​Contudo, agora em 2026, assistimos à cristalização de uma retórica que coloca o equilíbrio fiscal em segundo plano, levando a Dívida Bruta do Governo Geral a romper a barreira dos 80% do PIB e ultrapassar a marca astronômica de R$ 10 trilhões. O resultado dessa filosofia de gasto, onde se gasta muito mais do que se recebe sem qualquer sinalização de corte na própria carne, é matemático e implacável: o mercado, percebendo que a seriedade com as contas públicas deu lugar a um déficit primário persistente, eleva o prêmio de risco. Isso obriga o Banco Central a manter a Selic em patamares que sufocam qualquer tentativa de investimento produtivo. Neste cenário, o pagamento de juros e encargos da dívida consome anualmente cerca de R$ 1 trilhão, o que representa aproximadamente 42% de todo o orçamento federal executado. Essa sangria financeira é o maior mecanismo de concentração de renda do país, pois enquanto as áreas sociais recebem migalhas — com a Saúde e a Educação somadas mal chegando a um quinto do que é destinado aos juros —, os verdadeiros detentores da dívida garantem sua rentabilidade. Instituições financeiras detêm cerca de 33% dos títulos, seguidas por fundos de pensão e de investimento que controlam 45% do estoque, formando a elite rentista que verdadeiramente dita o ritmo da economia nacional.

​Essa matemática fiscal perversa não fica restrita aos gabinetes de Brasília; ela transborda para a prateleira do supermercado e para o posto de gasolina através do câmbio. Quando o governo gasta sem freios, a confiança na moeda nacional derrete, empurrando o dólar para cima. Como o Brasil é um exportador de commodities, o dólar alto faz com que o preço da soja, do milho e da carne suba internamente para se equiparar ao mercado externo, além de encarecer fertilizantes e insumos importados. O efeito é uma inflação de alimentos que o Banco Central tenta combater mantendo os juros altos, o que, ironicamente, aumenta o custo da dívida, piora o déficit e gera ainda mais desconfiança, fechando um ciclo vicioso onde o real se desvaloriza e o poder de compra do trabalhador é triturado. Enquanto a grande mídia muitas vezes ignora essa engrenagem, tratando o déficit como um mal necessário para o “investimento social”, a realidade internacional mostra que o caminho para o desenvolvimento real é o oposto. Países como o Chile e o México demonstram que a disciplina fiscal rígida permite taxas de juros estruturalmente mais baixas e um câmbio estável, atraindo investimento em infraestrutura em vez de apenas capital especulativo. Outros emergentes, como a Coréia do Sul, provaram que reformas que priorizam a eficiência do gasto criam um ambiente de crescimento que beneficia a base da pirâmide e não apenas os detentores de títulos públicos.

​O “passa-pano” institucional no Brasil atual ignora que não existe justiça social sustentável sobre um alicerce de insolvência. Um Estado que gasta sem critério e sem seriedade com as contas públicas acaba transferindo renda do trabalhador, via inflação e juros altos no cartão de crédito, para o sistema financeiro sob o aplauso silencioso da complacência política. Em 2026, o Brasil se vê diante do espelho da história, assistindo a uma dívida que caminha para níveis insustentáveis, provando que a insistência em ignorar a aritmética básica sempre cobra seu preço. Esse preço é pago em trilhões de reais, enquanto o país continua a ser o banquete de poucos e a conta amarga de muitos, restrita a um crescimento medíocre e a uma moeda cada vez mais fraca.


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