Naquela tarde de videoconferência, o Direito brasileiro não foi exercido; ele foi encenado como uma ópera bufa. O Magistrado, do alto de sua suntuosa cadeira paga pelo contribuinte, viu no monitor um pecado capital: o Advogado estava sem gravata. Para o juiz, aquilo era o caos, a anarquia, o fim da civilização.
Mas a verdadeira anarquia não estava no pescoço do advogado. Estava no holerite do Magistrado.
A Matemática do Absurdo
Enquanto suspendia a sessão por “falta de decoro”, o Meritíssimo carregava no bolso um contracheque que, naquele mês, beirava os 400 mil reais. Não era o acumulado do ano; era o rendimento de trinta dias. Uma cifra que exigiria décadas de trabalho de um cidadão comum para ser alcançada, mas que ali, sob o manto das “verbas indenizatórias” e dos “retroativos”, fluía como água de uma fonte inesgotável.
O escárnio é esse: o homem que recebe em um mês o equivalente a uma frota de carros populares sente-se moralmente ultrajado porque um trabalhador não usava um pedaço de pano em volta do pescoço.
A Liturgia como Camuflagem
A exigência da gravata é o mecanismo de defesa de uma casta que precisa manter o teatro aceso para que ninguém olhe para os números.
O Rito: Serve para criar a ilusão de que a Justiça é algo etéreo, divino e acima das misérias humanas.
O Real: É uma casta que se autoconcede benefícios que o Legislativo sequer ousa votar, transformando o teto constitucional em um piso meramente decorativo.
Para quem ganha 400 mil reais mensais, a realidade brasileira é uma abstração vista pela janela fumê do carro oficial. A gravata, para esse magistrado, é o símbolo da “ordem”. Ele suspende a sessão como quem diz: “Eu posso ganhar o que eu quiser, contanto que você se vista como eu mando”.
A Verdadeira Moralidade
A autoridade moral de um juiz deveria vir da sua capacidade de enxergar a justiça além das aparências. Mas ali, o que vimos foi a moralidade do acessório.
É de uma hipocrisia sem limites: o sistema judiciário mais caro do mundo ocidental, que consome fatias brutais do PIB para manter privilégios de realeza, para a sua máquina porque falta um nó de seda. O juiz exige o cumprimento da forma porque, se formos discutir o conteúdo — o conteúdo do seu salário, da sua produtividade e do seu distanciamento da miséria nacional —, ele não terá onde se esconder.
A sessão foi suspensa. O advogado foi buscar a gravata. O juiz continuou com seus 400 mil. E a justiça brasileira, nua e faminta, continuou esperando que alguém, um dia, desate o nó que realmente importa: o dos privilégios que sufocam o país.


