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Presidente Prudente
22 de abril de 2026
Oeste Cidade
CRÔNICA DO MAGRÃO

​A Herança das Ruínas: Uma Crônica da Terra de Ninguém

​O Presidente sentava-se à mesa não como um líder, mas como um herdeiro de vícios antigos, alguém cujo rosto já não refletia uma alma, mas apenas a máscara de mil concessões feitas no escuro. Ele estava corroído, não por um mal súbito, mas por aquela imoralidade lenta e persistente que se infiltra nas juntas como a umidade de um pântano, tornando a distinção entre o homem e o cargo uma mancha indistinguível de cinza. Para ele, a caneta não servia para assinar o futuro, mas para rasurar o passado e garantir que o presente permanecesse imóvel, um estuário de águas paradas onde apenas os predadores conseguem respirar.

​Do outro lado da praça, o Presidente do Senado movia-se com a discrição de um fantasma ou de um refém que já se apaixonou pelas correntes. Sua omissão era uma forma de arte, um silêncio tão profundo que se tornava cúmplice. Ele olhava para o alto edifício da Corte com o pavor de quem sabe que o mestre mora ali. Onde deveria haver o contrapeso da lei, havia apenas o vácuo de um homem que trocou sua espinha dorsal pela sobrevivência burocrática, servindo de anteparo para uma casta que não mais interpreta a Constituição, mas a reescreve com a fúria de quem se acredita o próprio Criador.

​E então, os deuses de toga. Eles caminham pelos corredores de mármore com o passo pesado de quem não deve satisfações ao tempo ou ao pó. Para essa militância travestida de justiça, o Estado não é um pacto entre iguais, mas uma propriedade privada, um feudo cujas fronteiras são definidas pelo alcance de suas próprias canetas. Eles agem com a convicção absoluta de que a verdade é o que eles dizem que é, e que a Democracia — essa palavra que eles pronunciam com uma reverência hipócrita — nada mais é do que uma embalagem de seda para cobrir o corpo de uma nação que eles mesmos ajudaram a sufocar.

​O que resta é uma máquina colossal e ineficiente, um monstro de engrenagens enferrujadas que exige ser alimentado com o suor de quem está do lado de fora dos muros. A Democracia virou uma mentira conveniente, um teatro de sombras onde os atores já não seguem o roteiro, pois sabem que o público está exausto demais para protestar. É o desencanto total: a percepção de que as instituições, que deveriam ser os pilares da casa, são na verdade as térmitas que a devoram por dentro.

​Nesse cenário, o povo não é um cidadão; é apenas o combustível que mantém acesas as luzes dos palácios, enquanto a casta de privilegiados brinda à própria eternidade, ignorando que, na história dos homens, nenhum império de arrogância jamais escapou do julgamento implacável da decadência. O som que se ouve não é o do progresso, mas o ranger de uma estrutura que se recusa a cair, mesmo já estando morta. Publicado em 1929, “O Som e a Fúria” (The Sound and the Fury) é frequentemente citado como a obra-prima de William Faulkner. O título é uma referência a uma passagem de Macbeth, de Shakespeare: “A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, significando nada.” O Brasil parece o livro o Som e a Fúria de William Faulkner onde ele narra a queda da família Compson, uma antiga linhagem aristocrática do Mississippi que, ao longo de trinta anos, definha financeira e moralmente.

​A narrativa nos ensina que, quando o orgulho humano se sobrepõe à lei moral, o resultado é sempre uma desolação onde o “som e a fúria” não levam a lugar nenhum. Como você vê o papel da sociedade diante dessa estrutura que parece ter se blindado contra qualquer renovação?

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