Dizem que o diabo não usa mais chifres; hoje ele usa marquetagem de ponta e um sorriso ensaiado para o horário eleitoral. No Grande Teatro do Planalto, Henrique Fausto não é apenas um personagem de Goethe perdido nos trópicos; ele é o arquétipo do político brasileiro que descobriu que a alma é uma moeda de troca barata diante do banquete do poder.
O Balcão de Negócios Mefistofélico
Enquanto o Fausto original buscava conhecimento universal, o nosso Fausto busca o voto universal. A transação foi simples: ele entregou a decência em uma bandeja de prata em troca da imortalidade política.
O problema é que o contrato dele foi redigido em papel almaço, com caneta esferográfica que falha, enquanto o mundo gira na velocidade da fibra ótica.
O Anacronismo do Poder: Ele é um homem analógico em um mundo de algoritmos. Suas promessas têm cheiro de mofo e naftalina.
A Retórica do Ontem: Fala para um Brasil que não existe mais, mas que ele insiste em manter respirando por aparelhos, apenas porque é nesse cenário de carência que ele brilha como o “Salvador”.
A Síndrome de Estocolmo Eleitoral
O que assusta não é a imoralidade de Fausto — essa já é precificada pelo mercado da corrupção. O que estarrece é a dependência emocional de uma plateia que aplaude o próprio assalto.
Criou-se a fantasia do “Pai dos Pobres”, uma figura messiânica que abraça a miséria para garantir que ela nunca acabe. Afinal, se o filho cresce e se torna independente, o pai perde a utilidade. O povo, carente de heróis, endeusa a hipocrisia encarnada. É uma devoção quase mística a um homem que já ultrapassou todos os limites da decência, mas que é perdoado com a frase mais triste da nossa sociologia: “Ele rouba, mas faz”. E o pior é que ele não faz nada. Apenas lubrifica a máquina da corrupção institucional.
”A imoralidade de um líder não é um defeito de fabricação para o seu eleitor fiel; é uma prova de ‘esperteza’ que o povo, em sua própria rasteira sobrevivência, secretamente admira.”
O Crepúsculo da Decência
Vender a alma ao diabo em busca da fama é um clichê literário. O toque brasileiro nessa tragédia é que Fausto vendeu a alma, mas quem paga as prestações, com juros e correção monetária, é o cidadão.
Estamos diante de um busto de bronze com pés de barro. Henrique Fausto segue desfilando sua arrogância analógica, ignorando que o tempo é o único juiz que não aceita propina. Enquanto isso, o povo continua na fila do pão, esperando que as migalhas que caem da mesa do “Pai” sejam, por milagre, o banquete da dignidade.
A pergunta que fica, ao fechar as cortinas dessa crônica, é: até quando a fantasia da santidade vai esconder o cheiro de enxofre que emana de Brasília?



