O sol que castigou o asfalto de Ribeirão Preto durante a Agrishow 2026 não foi suficiente para aquecer o otimismo que, em anos anteriores, transbordava pelos estandes de colheitadeiras monumentais. Pelos corredores da feira, o que se ouviu não foi apenas o som de motores, mas o eco de uma cautela que há muito não se via no campo.
A Queda da Gigante
Considerada a maior vitrine tecnológica do setor, a Agrishow encerrou sua edição de 2026 com um número que acendeu o sinal de alerta: R$ 11,4 bilhões em intenções de negócios. À primeira vista, o valor impressiona, mas a matemática do campo é implacável: o número representa uma queda de 22% em relação a 2025 (que fechou em R$ 14,6 bilhões).
Historicamente, a feira vinha em uma curva ascendente desde 2015. Em 2023 e 2024, o setor viveu o auge da capitalização. Agora, a retração de 22% nas vendas e a sensação de “ruas mais vazias” — embora o público oficial tenha se mantido próximo aos 200 mil — simbolizam um produtor que foi à feira para olhar, mas não para assinar o cheque.
O Peso do “Custo Brasil” e a Tempestade Perfeita
O agronegócio brasileiro não está sofrendo por um erro de gestão, mas por uma combinação de fatores externos e internos que criaram a “tempestade perfeita”:
Margens Apertadas: Os preços das commodities (soja e milho) recuaram no mercado internacional, enquanto os custos de produção — fertilizantes, diesel e defensivos — permanecem elevados, inflados pela instabilidade geopolítica global.
O Juro que Sufoca: Com a taxa Selic em patamares restritivos (14,5% ao ano), o crédito ficou proibitivo. Financiar uma máquina de milhões de reais tornou-se uma aposta arriscada demais para quem já lida com a incerteza do clima.
Clima Inóspito: Quebras de safra consecutivas em diversas regiões, provocadas por extremos climáticos, drenaram o fluxo de caixa do produtor.
A Sombra da Recuperação Judicial
O dado mais alarmante, contudo, não está nos estandes de Ribeirão Preto, mas nos tribunais. Em 2025, os pedidos de Recuperação Judicial (RJ) no setor saltaram 56,4%, atingindo quase 2 mil solicitações.
”A RJ, que antes era uma ferramenta de grandes indústrias, chegou ao CPF do produtor rural.”
A inadimplência no campo subiu para 8,3%, um reflexo direto de um setor que se alavancou no passado acreditando na perpetuidade dos preços altos. O crescimento de 56% nas RJs é o sintoma de uma asfixia financeira: o produtor não quer desistir da terra, mas precisa de fôlego para não ser engolido pelas dívidas.
Conclusão: É hora de Arar a Gestão
O agronegócio brasileiro continua sendo a força bruta que sustenta a balança comercial, mas o momento exige uma transição: do produtor que foca apenas em produtividade (sacas por hectare) para o produtor que foca em gestão financeira (lucro por hectare).
A queda na Agrishow e o recorde de recuperações judiciais são um recado claro: o agro não é mais um porto seguro de crescimento infinito e sem riscos. É um setor que exige profissionalismo extremo, proteção contra a volatilidade e, acima de tudo, uma política de crédito que não sufoque quem produz. O campo está em silêncio, mas é o silêncio de quem está recalculando a rota antes da próxima semeadura.
O agro não vai parar, mas está aprendendo, da forma mais dura, que nem só de sol e chuva vive uma lavoura; ela vive, sobretudo, de números saudáveis.
Análise Técnica dos Dados Citados:
Negócios Agrishow: R$ 11,4 bi (2026) vs R$ 14,6 bi (2025).
Selic: Patamar de 14,5% (maio/2026).
Recuperação Judicial: Alta de 56,4% (Fonte: Serasa Experian 2025/2026).
Inadimplência: 8,3% da população rural (3º Tri 2025).



