Abro o jornal e, como dizia o poeta, as “pálpebras piscantes” das manchetes me encaram com o cinismo de quem já não tem vergonha. O cheiro que sobe das páginas não é apenas o da pólvora das guerras distantes, mas o odor acre da carniça política que apodrece ao sol de Brasília.
”Nada de novo há no rugir das tempestades”, escreveu Vladimir. E ele tinha razão. No Brasil, a tempestade é o estado permanente.
O Carnaval dos Dois Pesos
A notícia é um tapa no rosto: um candidato à Presidência usa o erário para financiar uma escola de samba em sua própria glória. É o narcisismo custeado pelo povo, chancelado por um TSE que olha para o lado. A justiça, que deveria ser a quilha cortando as ondas do abuso, tornou-se um moinho que tritura apenas o grão pequeno. Para os grandes, o tribunal libera o confete; para os pequenos, o rigor da lei.
O Magistrado e o Mercado
Enquanto o tamborim bate, o Supremo encena sua própria ópera. Entre processos do Banco Master e empreendimentos milionários, a imparcialidade é uma peça de museu. O magistrado, que deveria ser o farol no meio do mar agitado, parece mais interessado em garantir que sua própria embarcação não sofra com as marés. Quando o juiz se torna sócio do cenário que deveria julgar, a balança da justiça não apenas pende para um lado — ela quebra.
O Voo do Câncer
E acima de tudo, os urubus. O Centrão não é apenas um grupo político; é uma patologia. Eles voam em círculos, as asas negras sombreando o orçamento público. Não há alegria em suas manobras, mas também não há tristeza. Há apenas o instinto da sobrevivência sobre a carniça. Eles sabem que, enquanto o mar da história estiver agitado, haverá destroços para saquear.
“Não estamos alegres, é certo, mas também por que razão haveríamos de ficar tristes?”
O verso de Maiakovski ecoa como um diagnóstico da nossa paralisia. O brasileiro cansou de se entristecer com a corrupção; a tristeza exige uma energia que a sobrevivência nos roubou. Aceitamos o absurdo como se fosse o clima: chove, faz sol, o político rouba, o juiz se omite.
Rompendo as Ondas
Mas o poeta nos deixa um ultimato. O mar da história é agitado, e as ameaças e guerras — sejam elas de armas ou de canetas corruptas — precisam ser atravessadas. Não com a passividade de quem flutua como lixo, mas com a força de quem corta a onda.
O Brasil de hoje é uma escola de samba financiada pelo crime, julgada por cúmplices e sobrevoada por abutres. Para atravessar esse mar de lama, nossa quilha precisa ser mais afiada do que nunca. Porque, se não cortarmos o lodo ao meio, ele acabará por nos sufocar. No final, o desfile termina, as luzes se apagam e o lixo acumulado na avenida é tudo o que resta de um país que se vendeu por um enredo de mentiras. O TSE guarda o carimbo, o magistrado fecha a conta bancária e o Centrão, de bucho cheio, espera o próximo banquete. Olhamos para o mar da história e percebemos que a quilha de Maiakovski não cortou as ondas para nos libertar, mas apenas para abrir caminho para que os mesmos tubarões de sempre continuassem navegando. No Brasil, a única quilha que realmente corta a carne da história é a impunidade, que avança serena enquanto o povo, amarrado ao mastro, é forçado a aplaudir o próprio naufrágio.



