O Brasil vive sob uma miragem. A polarização ruidosa que domina manchetes e redes sociais — essa briga de arquibancada entre facções políticas — é o espetáculo que nos distrai. É a fumaça para esconder o fogo que consome as bases da República: o aparelhamento silencioso e estratégico do Estado, transformando-o de guardião da nação em ferramenta de um projeto de poder partidário.
A tragédia que se desenrola nos últimos anos não está na briga de rua, mas na silenciosa corrosão das instituições. O Estado, essa máquina colossal e pretensamente neutra, deveria ser a viga mestra de um projeto de País. No entanto, o que testemunhamos é a sua submissão gradual e implacável.
Observemos o Judiciário, pedra angular de qualquer democracia. Suas mais altas cortes deveriam ser o último refúgio da isenção. Contudo, quando as indicações para o Supremo Tribunal Federal (STF) e para tribunais superiores parecem priorizar a lealdade biográfica ou a simpatia ideológica em detrimento da excelência técnica inquestionável, a toga não veste um juiz: veste um potencial ideólogo. A perda de credibilidade das instituições não é um acidente; é o resultado da suspeita de que a balança da Justiça pende conforme a agenda do Executivo que nomeou.
Essa estratégia se expande pela burocracia. O topo das agências reguladoras, estatais estratégicas e fundos de fomento é, frequentemente, ocupado por militantes e apadrinhados. Não se trata apenas de empregar aliados; trata-se de capturar os fluxos de dinheiro e decisão, minando a eficiência e abrindo brechas para a corrupção sistêmica, que agora se disfarça de “negociação política” ou “governabilidade”.
O controle se estende ao campo das ideias. As Universidades e o sistema de incentivo cultural se tornam centros de irradiação de uma narrativa única. Com a nomeação de reitores alinhados e o financiamento farto a projetos que ecoam a agenda oficial, o debate plural é estrangulado. A classe artística e intelectual, que deveria ser a voz crítica e dissidente da sociedade, frequentemente se torna uma imprensa conivente, silenciada por um sistema de benesses que garante conforto e visibilidade apenas a quem não questiona a viga mestra.
O verdadeiro risco à democracia não é a polarização, mas o silêncio imposto sobre os temas que realmente importam. Ninguém na elite política de poder, aparelhada e satisfeita, discute a reforma radical do Estado brasileiro:
A Eficiência Absurda: Não há debate sobre como tornar o Estado menos corrupto, mais produtivo, mais assertivo. A mediocridade do serviço público é o preço que a elite política está disposta a pagar pelo controle.
O Pacto Federativo: O absurdo do centralismo financeiro de Brasília que tira a autonomia dos estados e municípios é um tema tabu. Manter o dinheiro concentrado é manter o poder de barganha e o controle sobre as migalhas.
O projeto de poder é sustentado por um assistencialismo necessário, mas atrelado ao populismo. É um ciclo vicioso: o voto é garantido por programas sociais (o pão), enquanto o Estado é drenado por indicações e ineficiência (a captura).
A grande tragédia brasileira é que o Partido dos Trabalhadores, que nasceu com o discurso de ética e de representação dos oprimidos, traiu sua própria história. Ao aparelhar o Estado com a mesma voracidade das oligarquias que criticava, ele não construiu um projeto de País, mas sim um sofisticado sistema de permanência no poder. E o país, preso entre o circo da polarização e o peso do Estado capturado, apenas assiste ao futuro ser engolido pela mediocridade do presente.



