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2 de fevereiro de 2026
Oeste Cidade
CRÔNICA DO MAGRÃO

Flávio 2026: A Estratégia do Sobrenome e a Dança dos Poderes

​O tabuleiro de xadrez de 2026 parecia resolvido: a direita, desprovida de seu líder, ungiria Tarcísio de Freitas, o gestor pragmático de São Paulo, para enfrentar a máquina de Lula. A peça já estava em movimento, a bênção do mercado estava dada, e a moderação seria o novo mantra.

​Então, veio o xeque inesperado

​Jair Bolsonaro, o ex-presidente inelegível, trocou a jogada óbvia pela mais surpreendente: Flávio Bolsonaro, o filho senador, seria o nome para 2026. O anúncio causou um silêncio ensurdecedor em Brasília, seguido por um alvoroço calculado.

​A Estratégia do “Controle Total”

​O movimento não é sobre vencer em 2026; é sobre sobreviver a 2026.
​Para o clã Bolsonaro, a ascensão de Tarcísio representava o risco de perda de controle. O governador, embora leal, vinha construindo uma imagem de gestor autônomo, com pontes para o Centrão e o mercado – elementos que o pai jamais controlou totalmente. Tarcísio, para vencer, precisaria se “desbolsonarizar” gradualmente. E para Jair, preso politicamente e monitorado, o risco de ser substituído e esquecido era inaceitável.
​Lançar Flávio é uma imposição de lealdade e uma blindagem ideológica. Garante que o bolsonarismo raiz – o motor de 25% a 30% do eleitorado – permaneça sob o teto da família. É um sacrifício tático: Flávio é o nome para perder mantendo a chama acesa, enquanto Tarcísio, blindado em São Paulo, é o ativo preservado para 2030, sem o desgaste de uma derrota presidencial inevitável.

​O Cansaço do Centrão e a Jogada de Valdemar

​A reação do Centrão, personificado por Valdemar Costa Neto (PL), foi a mais reveladora. O político experiente, que preza o pragmatismo e a vitória, não demonstrou o esperado repúdio. Ele aprovou a indicação.
​O Centrão sabe que não pode controlar Flávio como faria com o negociável Tarcísio. Mas Valdemar enxergou a moeda de troca: a única forma de manter o valioso capital eleitoral de Bolsonaro (os milhões de votos) dentro do PL é aceitando o nome da família.
​É um jogo de “pagar o preço”: o PL arrisca uma derrota em 2026 com Flávio, mas em troca, garante a lealdade do clã e a chance de ditar as regras em 2030, quando a própria base já terá se cansado do nome familiar e exigirá um nome mais viável, como Tarcísio. O Centrão está comprando o espólio político de Bolsonaro, mesmo que tenha que aceitar Flávio como “garoto-propaganda” temporário.

O Susto do Mercado e a Soberba do PT

​O mercado financeiro reagiu com alarme e desconfiança. Flávio representa a polarização máxima, a continuidade dos ataques institucionais e a perda do nome que defendia as reformas e o liberalismo de forma mais crível (Tarcísio). A bolsa flutuou: para o mercado, o risco de vitória de Lula contra um adversário radical aumentou.
​No campo adversário, o PT e Lula respiraram aliviados. Flávio é o adversário ideal. Sua alta rejeição facilita a estratégia de concentrar a campanha no plebiscito “pró ou contra Bolsonaro”. A soberba petista é evidente: eles enxergam uma vitória facilitada.
​No entanto, essa soberba é o maior risco. Se o PT subestimar a capacidade de mobilização do núcleo bolsonarista ou se a candidatura Flávio for forçada a recuar no meio do jogo, o PT não terá tempo de reagir a um nome mais forte (como um Tarcísio repentinamente desimpedido), perdendo o primeiro turno e facilitando a união da direita no segundo.

​O Olhar de Trump e a Sombra do STF

​Internacionalmente, Donald Trump endossa o movimento. Ele vê a indicação de um filho como a consolidação de uma “marca de família” no poder, alinhando-se ao seu próprio modelo e garantindo a continuidade do eixo populista global contra a esquerda.
​Em solo nacional, a indicação recoloca o STF no centro do palco como o árbitro supremo. A chapa Flávio, herdeira da retórica antidemocrática, garante que o Judiciário manterá a fiscalização rigorosa sobre a campanha, especialmente em relação a fake news e ataques institucionais. O STF, juntamente com o TSE, está pronto para traçar linhas vermelhas mais estritas do que nunca. A presença de Flávio, ironicamente, consolida o papel do STF como guardião e moderador de uma eleição que será, inevitavelmente, um plebiscito sobre a estabilidade democrática.
​A candidatura de Flávio Bolsonaro é, portanto, um ato de guerra política. Não é sobre ganhar, mas sobre sobreviver e impor o preço da lealdade a todos os seus aliados, transformando 2026 em uma batalha pelo controle da alma da direita brasileira.

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