I. A Heresia do Lucro Ético
Jan Antonín Baťa foi o capitalista que chocou o capital. Sua máxima, “Não construo Império e sim homens”, não era retórica, mas o alicerce da cidade de Zlín na Tchecoslováquia. Enquanto o mundo industrial explorava, Baťa distribuía lucros na década de 30 e oferecia dignidade, um choque cultural para os capitalistas selvagens. A riqueza, para ele, era uma ferramenta para valorizar o ser humano, não para produzir miséria individual. Essa filosofia transformou sua empresa em uma das maiores fortunas do mundo, com presença em mais de 80 países.
Após a perda trágica de seu irmão e mentor, Tomáš, em um acidente, Baťa assumiu o comando, transformando a dor em uma força de expansão humanitária. O império do sapato era, na verdade, um império de oportunidade.
II. O Exílio e a Prova de Fogo no Brasil
O fim da Segunda Guerra Mundial não trouxe justiça, mas sim a traição ideológica. A Tchecoslováquia, tomada pelos comunistas, viu em Baťa um inimigo a ser abatido. Sob a farsa de colaboração nazista, o regime confiscou toda a sua fortuna, roubando o legado de uma vida de trabalho ético. Forçado ao exílio, Baťa, o homem que perdera tudo, não perdeu sua visão.
O Brasil se tornou seu refúgio e seu novo quadro branco. Convidado pelo governo de Getúlio Vargas, ele desembarcou no país, não como um refugiado, mas como um empreendedor incansável. Ele sabia que sua verdadeira riqueza não eram os bens, mas a capacidade de criar.
III. O Legado Urbanístico Inabalável
Em terras brasileiras, ele recomeçou a missão de construir Cidades. Sua visão urbanística era revolucionária: cidades planejadas para o homem integral, não apenas para a produção.
Fundação: Ele fundou cidades como Bataguassu (Mato Grosso do Sul), Batayporã (Mato Grosso do Sul), e Mariápolis (São Paulo).
Conceito Moderno: O Batismo do Baťa incluía a distribuição igualitária dos lotes, o planejamento para a saúde, educação e lazer, com ruas largas e áreas verdes.
Essa arquitetura social e funcional é tão relevante que até hoje o planejamento dessas cidades é motivo de estudo em Universidades de ponta no Brasil, como a USP, sendo um modelo de urbanismo humanista e desenvolvimento sustentável.
IV. A Vitória Póstuma e a Verdade
Jan Antonín Baťa faleceu no Brasil em 1965, sem ver seu nome totalmente limpo. Mas sua convicção de que “A verdade virá. Ela é como água e óleo, não se mistura” se provou profética.
Após a queda do comunismo, a luta jurídica de sua família foi finalmente reconhecida. Em 2005, um tribunal da República Tcheca anulou formalmente todas as falsas acusações de traição, declarando que o confisco de sua fortuna foi um ato ilegal de perseguição política.
O reconhecimento veio em bronze: na cidade de Zlín, foram erguidas estátuas para honrar o legado dele e de seu irmão Tomáš. O país que o expulsou hoje o celebra.
Jan Antonín Baťa não foi apenas um gigante do capitalismo; ele foi um visionário humanista que demonstrou que o maior lucro de um empreendimento é a dignidade humana que ele consegue gerar. Sua vida é um testemunho eterno da resiliência e da vitória da ética sobre a ideologia.



