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3 de fevereiro de 2026
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CRÔNICA DO MAGRÃO

O Eco de uma Pergunta Vazia: A Diplomacia da Perfumaria

Renato Russo era um otimista incurável, embora passasse por pessimista. Ao engavetar “Que País é Este” em 1978, ele cometeu o erro mais nobre que um artista pode cometer: acreditou no prazo de validade da própria indignação. Achou que o Brasil, em algum momento, deixaria de ser uma paródia de si mesmo e que sua letra se tornaria uma peça de museu. Cinquenta anos depois, a canção não é um revival; é um diagnóstico terminal de um país que insiste em não sarar.

​Saímos de uma ditadura para entrar em uma “redemocratização” que mais parece um estado de convalescença eterna. Nossa democracia não cresce; ela apenas engatinha sobre tapetes caros de gabinetes em Brasília, trocando fraldas de velhas oligarquias. É uma democracia de berçário, frágil para o cidadão, mas blindada para o privilégio.

​Como explicar, com a serenidade que o Direito exige, que o país onde se prega a “lisura das instituições” é o mesmo onde contratos de R$ 120 milhões florescem na sombra de tribunais superiores? Enquanto o brasileiro médio luta contra a inflação do supermercado, esposas de ministros celebram contratos milionários com bancos amigos. Vivemos o ápice do cinismo institucional: magistrados que saltam sobre o degrau do concurso público — o filtro básico da competência técnica — para sentarem-se no Olimpo jurídico sem o devido saber, mas com as conexões certas. O verdadeiro “trânsito em julgado” no Brasil é o trânsito de influências, muitas vezes hospedado em resorts de luxo levantando suspeitas pela Polícia Federal a quem deveria, teoricamente, julgar com a isenção de uma estátua de olhos vendados.

​Para completar o cenário de realismo fantástico, o comando da nação empenha-se em uma gincana de absurdos. Do alto do púlpito, ouve-se que o estudo é supérfluo para os humildes e que o crime é um subproduto da conveniência. É a glamourização da ignorância e a vitimização do algoz. No Brasil de hoje, o crime não apenas compensa; ele é justificado pela retórica oficial.

​E quando a situação interna se torna insustentável, apela-se para a diplomacia da perfumaria. O figurino é impecável para o palanque da ONU. Lá, entre apertos de mão e resoluções vazias, o Brasil se apresenta como o pacificador do mundo. Borrifa-se uma fragrância de “protagonismo global” para mascarar o cheiro de pólvora que impregna o dia a dia de nossas capitais. É o síndico que quer mediar a paz no Oriente Médio enquanto o seu próprio prédio é governado por facções e o telhado desaba sobre os inquilinos.

​A incoerência é total. Como pode um país que figura entre os mais violentos do mundo pretender ditar regras de segurança internacional? A política externa brasileira virou um baile de máscaras onde o anfitrião esqueceu que, ao voltar para casa, não terá nem a chave da porta, nem a autoridade moral para pedir silêncio aos vizinhos.

​A pergunta de Renato Russo continua ecoando, mas com uma diferença crucial. Em 1978, era um grito. Em 1987, uma esperança ferida. Em 2026, é apenas a constatação de um cansaço. Que país é este? É o país onde a indignação virou feriado e a sujeira debaixo do tapete já criou montanhas tão altas que os donos do poder já podem construir resorts no topo delas.

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