15.5 C
Presidente Prudente
16 de junho de 2026
Oeste Cidade
CRÔNICA DO MAGRÃO

O Malabarismo Invisível das Planilhas: Quem Paga pela “Taxa Zero”?

​Há uma velha máxima na economia, popularizada por Milton Friedman, que resume com precisão os limites da contabilidade pública: “Não existe almoço grátis”. O custo de qualquer serviço, estrutura ou transação financeira é uma constante física; ele não pode ser aniquilado por decreto ou edital. Ele pode, no entanto, ser camuflado. E é exatamente esse o feitiço contábil que a Prefeitura de Presidente Prudente opera no edital de R$ 74,2 milhões do vale-alimentação dos servidores municipais.

​Ao estabelecer que a empresa vencedora da licitação deve ser remunerada exclusivamente pelas taxas cobradas dos estabelecimentos credenciados, o município celebra uma aparente “taxa zero” para os cofres públicos. No discurso oficial da gestão, a medida reluz como eficiência administrativa e austeridade fiscal. Na realidade das forças de mercado, trata-se de um fenômeno clássico de assimetria e incidência econômica da taxa, onde o peso real do custo é empurrado silenciosamente para o elo mais fraco da corrente.

​O erro analítico fundamental de fingir que esse custo sumiu reside em ignorar a capilaridade e a natureza do comércio local. O mercado de vouchers (cartões-alimentação) opera sob uma lógica de oligopólio, onde poucas e gigantescas operadoras ditam as regras. Grandes redes de hipermercados possuem escala e poder de barganha para negociar taxas ínfimas, quase imperceptíveis, com essas bandeiras. O pequeno mercado de bairro, a padaria da esquina e o açougue local não têm essa força. Para eles, a escolha é leonina: aceitam a taxa abusiva imposta pela operadora ou perdem o cliente — neste caso, o servidor municipal, que agora circula com o seu poder de compra amarrado àquela tarja magnética ou chip.

​É nessa encruzilhada que a frieza dos números encontra a realidade das calçadas. Para o pequeno comerciante, que acorda de madrugada e conhece o cliente pelo nome, essa taxa funciona como um imposto privado sobre o seu faturamento bruto. Diante de margens de lucro já espremidas pela inflação dos alimentos e pelos custos operacionais crescentes, o comércio de vizinhança é colocado contra a parede. Ele tem apenas duas saídas, e ambas são profundamente nocivas para o ecossistema da cidade.

​A primeira saída seria absorver o prejuízo. No entanto, em um negócio familiar, reduzir ainda mais uma margem já estreita significa desestimular o investimento, adiar a reforma do balcão, cancelar a contratação de um entregador e, no limite, sufocar a economia de base que pulsa nos bairros prudentinos. A segunda saída, que se impõe pela necessidade de sobrevivência, é o repasse inevitável do custo ao preço final das mercadorias. E é precisamente aqui que a ironia do ciclo se fecha com crueldade.

​Quando o feijão, o arroz e o pão encarecem centavos na gôndola para compensar o pedágio do cartão, quem paga a conta, por vias transversas, é o próprio servidor público. Aquele mesmo trabalhador dedicado — que planeja o mês contando com o vale para garantir a janta da família — descobre, na boca do caixa, que o seu dinheiro compra menos do que deveria. O benefício de R$ 74,2 milhões, injetado com o pretexto de valorizar o funcionalismo e injetar oxigênio na economia local, sofre uma depreciação artificial e imediata. O servidor recebe o valor nominal integral na sua conta, mas o seu valor real, o poder de compra real, é corroído silenciosamente. A Prefeitura não economizou dinheiro público; ela apenas tributou indiretamente o prato de comida do seu próprio trabalhador.

​O aspecto mais gritante e anacrônico dessa decisão é o seu absoluto descompasso com a modernidade financeira do país. O Brasil desenvolveu o Pix, uma ferramenta de democratização bancária que reduziu a zero o custo de transação para o cidadão e a frações irrelevantes para as empresas. O dinheiro hoje circula na velocidade da luz, sem intermediários pesados. Optar por um modelo tradicional de intermediação por vouchers — que sobrevive justamente do aprisionamento de taxas e do atraso nos repasses — é uma escolha política por um sistema ineficiente e caro. A administração ignora soluções modernas de transferência direta ou arranjos de pagamento instantâneo que poderiam garantir que cada centavo de real do contrato ficasse, integralmente, entre o bolso do funcionário e o caixa do comerciante da cidade.

​Uma cidade não é uma soma de planilhas isoladas e estanques; é um ecossistema interdependente. Quando a administração pública asfixia o comércio local para proteger o seu próprio fluxo de caixa, ela gera uma ilusão de ótica fiscal. O dinheiro que a Prefeitura temporariamente “economiza” ao não pagar as taxas da operação é o mesmo dinheiro que deixa de girar no comércio local, que deixa de gerar novos empregos e que, inevitavelmente, fará falta na arrecadação de tributos municipais ali na frente.

​A decisão carece de visão macroeconômica e de sensibilidade social. Transforma uma política pública essencial de bem-estar e fomento em um jogo de soma zero, onde a burocracia se blinda, as grandes operadoras de cartão garantem seus lucros legítimos, e a ponta final — quem trabalha na base e quem vende no balcão — financia o espetáculo em silêncio. No teatro das aparências da gestão pública, o edital pode até ser lido como um sucesso de economia. Na vida real das famílias e do comércio prudentino, é apenas mais um boleto que mudou de endereço, mas que continua batendo na mesma porta.

Relacionados

A Revolução do Algodão-Doce e do Batom

Persio Isaac

A Ilusão do Tempo Lindo: O Custo Invisível da Canetada

Persio Isaac

​O Samba no Divã: Entre o Sagrado, o Profano e o Judiciário

Persio Isaac

Utilizamos cookies para melhorar a sua experiência no nosso site. Ao utilizar o nosso site, você concorda com os cookies. Aceitar Rejeitar