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27 de fevereiro de 2026
Oeste Cidade
CRÔNICA DO MAGRÃO

O Nascer da Quimera: Alexandre de Moraes e a Subversão da Lei (2019-2024)

​Tudo começou com um ato de poder puro, destituído de legalidade ordinária: o Inquérito 4781 das Fake News, em 2019. Sem sorteio, sem provocação do Ministério Público, o então presidente do STF, Dias Toffoli, entregou a Alexandre de Moraes uma carta branca. Não era apenas um inquérito; era a fundação de um novo regime judicial.

​Moraes, um homem de origem ligada à centro-direita paulista, rapidamente entendeu o jogo. A esquerda via nele um demolidor do bolsonarismo, e ele se tornou o “xerife” implacável que, ao centralizar investigações, acusações e julgamentos em seu próprio gabinete, tornou-se a antítese do devido processo legal. A cada prisão de um crítico, a cada censura a um perfil, o aplauso crescia, consolidando sua imagem como “salvador da democracia”. Em 2025, com a prisão de Jair Bolsonaro, o projeto de poder parecia concluído.

Mas, o poder absoluto não reconhece limites, e o “xerife” que salvava a nação na luz do dia, começou a frequentar os salões de charuto onde o Direito era apenas um acessório para negócios milionários.

​O Banco Master: A Veia Aberta do Dinheiro Público e a Toga Cúmplice

​No vácuo criado pela polarização e pelo poder excessivo do Judiciário, floresceu o Banco Master, sob a batuta de Daniel Vorcaro. Sua ascensão meteórica, com um crescimento de 20 vezes em cinco anos, não era fruto de genialidade financeira, mas de uma simbiose predatória com o “Sistema”. A investigação da PF, em 2026, finalmente expõe os pilares dessa fortuna:

​O Braço Político — Davi Alcolumbre: No Amapá, feudo de Davi Alcolumbre, a Amprev (fundo de previdência dos servidores estaduais) injetou R$ 400 milhões no Banco Master em apenas 20 dias, ignorando todos os alertas técnicos. O dinheiro dos aposentados foi diretamente para sustentar as letras financeiras de um banco que o Banco Central acabaria por liquidar em novembro de 2025. Alcolumbre, o “dono” do Senado, garantia que a torneira do dinheiro público estivesse sempre aberta.

​O Braço Jurídico — Moraes & Toffoli: Para que ninguém olhasse de perto, o Master se blindava com os “escritórios certos”. O contrato de R$ 129 milhões com a banca de Viviane Barci de Moraes, esposa do “Super-Ministro”, não era apenas um honorário; era um salvo-conduto. As mensagens interceptadas de Vorcaro tratam os pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões como “prioridade absoluta”. Paralelamente, Dias Toffoli, então relator dos casos Master no STF, viu sua família lucrar com a venda de cotas do Resort Tayayá para fundos ligados ao banco. Uma “coincidência” que a PF, com os celulares de Vorcaro em mãos, transformou em “indício veemente de corrupção passiva”.

​O Xadrez dos Banqueiros e o Risco à Liberdade de Imprensa: A Queda de Malu Gaspar?

O palco da corrupção, porém, não suporta a luz. Quando a jornalista Malu Gaspar (O Globo) publicou detalhes sobre o contrato milionário da esposa de Moraes com o Master, o “Sistema” reagiu com fúria. Moraes, utilizando o mesmo aparato que criou para “defender a democracia”, ameaçou a jornalista com intimações e até prisões por “vazamento de sigilo”.

​Por trás das cortinas, movia-se a sombra de André Esteves (BTG Pactual). No mercado financeiro, era sabido que o Banco Master estava se tornando um “BTG paralelo”, usando o dinheiro público e a proteção do STF para crescer de forma desleal. Ao vazar informações para Malu Gaspar, Esteves não era um cruzado da justiça, mas um estrategista de guerra, buscando eliminar um concorrente que operava acima da lei do mercado, com a lei do Estado a seu favor.

​O Fator André Mendonça: O Fio Desatado da República​

A derrocada do “Sistema” acelerou em fevereiro de 2026. A pressão das provas foi tamanha que Toffoli foi obrigado a se declarar suspeito nos casos do Master. Os autos caíram no colo de André Mendonça. Pela primeira vez em sete anos, o controle da relatoria, e consequentemente das provas, escapou ao “Sistema”.
​Mendonça, um ministro visto como mais alinhado à estrita legalidade, agiu com a audácia que faltou a muitos. Ele determinou:

​Abertura total dos celulares de Daniel Vorcaro: A mina de ouro de informações que Toffoli havia “acautelado” por meses. Neles, a PF encontrou provas de que os R$ 400 milhões do Amapá foram negociados diretamente com assessores do gabinete da presidência do Senado.
​Quebra do sigilo do “Escritório Barci”: Para desvendar se os R$ 129 milhões eram por serviços jurídicos legítimos ou por “acesso privilegiado” ao relator do Inquérito do Fim do Mundo.

​Conclusão: O Colapso da República de Toga e o Eco de um Antigo Provérbio

​A República de 2026 está em seu ponto de inflexão. O que se desenrola não é um embate ideológico, mas a exposição visceral de como instituições foram cooptadas por interesses escusos. O “Sistema” agora busca uma última manobra: aprovar uma PEC para blindar os poderes do STF e retirar os processos das mãos de Mendonça, ou, em último caso, forjar uma crise que leve à prisão de jornalistas e opositores para abafar o barulho dos cifrões.

​Se o celular de Vorcaro for totalmente periciado, não serão apenas políticos que cairão; a máscara de um tribunal que se autoproclamou “salvador da democracia” enquanto se tornava sócio majoritário do caos financeiro e moral desabará. E, nesse palco de horrores, ecoa o antigo provérbio: “Não há mal que sempre dure e nem bem que nunca se acabe.” A esperança reside, talvez, na impossibilidade da perpetuação de tamanha desfaçatez.

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