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1 de fevereiro de 2026
Oeste Cidade
CRÔNICA DO MAGRÃO

O Shopping Center da Idoneidade: Liquidação de Reputações

​No Brasil, a biografia virou um acessório que se compra na mesma loja que o relógio de luxo. Antigamente, para ser respeitado, você precisava de uma vida inteira de trabalho. Hoje, basta um bom “media training”, um terno sob medida e o saldo bancário certo para contratar o silêncio — ou o aplauso — de quem importa.

​A Maquiagem de Bilhões

​É fascinante observar como o mercado financeiro brasileiro se transformou em um grande salão de beleza. Onde havia um rombo, passa-se um corretivo de “ajuste contábil”. Onde havia insolvência, aplica-se um blush de “expansão agressiva”.
​A credibilidade tornou-se um item de prateleira. Você não precisa ser sólido, você só precisa parecer sólido o suficiente para o próximo jantar com o regulador. É a estratégia do espelho: se você reflete o brilho das pessoas certas (aqueles ex-ministros e conselheiros de sobrenomes sonoros que você aluga a peso de ouro), ninguém se atreve a olhar o que está atrás do vidro.

​O Evangelho segundo os “Faria Limers”

​Entram em cena os novos profetas: os influenciadores de finanças. Eles são os sumos sacerdotes dessa religião do “parecer”. Com um sorriso clareado a laser e uma retórica de “liberdade financeira”, eles vendem o abismo como se fosse um trampolim.
​Se o dinheiro compra o alcance, o alcance compra o consenso. E o consenso, no Brasil, é a única verdade que resiste a uma auditoria. Quando o influenciador, o portal de notícias e o analista de banco — todos bebendo da mesma fonte (ou do mesmo patrocínio) — dizem que o “Banco X” ou a “Empresa Y” é o futuro, quem é você, reles mortal com seu iogurte grego na promoção, para duvidar? O dinheiro não compra apenas o seu clique; ele compra a sua percepção de realidade.

​O Camarote da Impunidade

​O risco? No Brasil, o risco é um conceito abstrato que só se aplica a quem deve o cheque especial. Para os grandes arquitetos dessas narrativas, o risco é apenas uma conversa de pé de ouvido com o ministro de turno.
​A frase “Nós não vai ser preso” não foi um erro de gramática; foi uma tese jurídica. É a certeza de que, no grande teatro nacional, o figurino de “grande empresário” funciona como um colete à prova de leis. Se o esquema cai, eles não descem para o porão; eles sobem para o camarote da renegociação, onde o Poder Público, sempre solícito, já está com o café pronto e a caneta cheia de tinta para assinar o próximo perdão.

​O Custo da Decência

​A ironia final é que, enquanto a credibilidade é vendida em lotes no mercado secundário, a decência tornou-se o ativo mais caro e raro do país.
​Samuel, lá no supermercado, sentia raiva do casamento porque ele ainda operava na lógica do sentimento real, da música escrita com a alma, do casaco de couro nas costas da amada. Samuel é um anacronismo. No Brasil dos “Masters” e das “Americanas”, Samuel seria aconselhado a transformar sua timidez em um curso de branding e sua frustração em um fundo de investimento de alto risco.
​Afinal, para que amar e mudar as coisas, se você pode apenas financiá-las e fingir que elas mudaram? O Brasil não é para amadores, mas é o paraíso para os cenógrafos.

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