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Presidente Prudente
27 de fevereiro de 2026
Oeste Cidade
CRÔNICA DO MAGRÃO

O som da lavagem no chão do abatedouro

​O velório do “Dono do Morro” — ou seria do Presidente do Conselho? — durou o tempo exato de u ma assinatura em cartório. As lágrimas, salgadas e teatrais, secaram antes que o café esfriasse. Maquiavel, se estivesse ali, daria um tapinha nas costas dos herdeiros: a morte do pai é um evento biológico; a perda do patrimônio, uma tragédia existencial. O luto brasileiro é uma contabilidade rápida.

​A sucessão não tardou. O novo “Homem do Balde” não subiu ao palanque com ideias, mas com um ritmo. Pof, pof, pof. O som do metal batendo no chão de cimento. É o som da democracia tropical, onde o voto não nasce da consciência, mas da carência fabricada.

​No cercado ao lado, o abatedouro trabalhava a pleno vapor. O som das serras elétricas e os gritos dos que “não serviam mais” ecoavam pelo pátio. Os porcos — ou melhor, os cidadãos — estancavam as orelhas por um segundo. Um calafrio percorria o lombo. “Olha lá, levaram o vizinho”, murmurava um. “Disseram que ele era contra o sistema”, justificava outro, já desviando o olhar.

​Mas aí vinha ele. O líder, o ungido pelo balde. ​Ele inclinava o recipiente e a lavagem escorria, cinzenta e gordurosa. Era o bônus, o auxílio, a emenda parlamentar, a promessa de que o abate de amanhã seria apenas para os “outros”. A suposta democracia brasileira opera nessa frequência: a liberdade de escolher qual mão vai te levar ao gancho, desde que essa mão te alimente hoje.

​A memória do brasileiro é um músculo atrofiado pela fome de urgência. O pai morreu? Que pena. O patrimônio foi taxado? Guerra civil. O vizinho foi silenciado no recinto ao lado? “Ele deve ter feito algo para merecer”. Desde que o balde continue batendo no chão, o eleitorado empurra o focinho na calha, chafurdando na gratidão por um resto de comida que, ironicamente, foi comprado com a venda do couro do seu próprio irmão.

​O erro de quem observa de fora é achar que o porco é burro. Ele não é. Ele é apenas um realista desesperado. No Brasil, a democracia não é o governo do povo; é o gerenciamento do pânico. Vota-se no algoz porque ele é o único que traz o balde. E, entre o medo do abate e o ronco do estômago, o estômago ganha de goleada, todas as vezes, de quatro em quatro anos.

​No final do dia, o Homem do Balde limpa as botas sujas de sangue e lama, sorrindo para o pátio silencioso. Ele sabe que, enquanto houver lavagem, ninguém perguntará de onde veio a carne que ele janta em sua mesa de mogno.

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