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Presidente Prudente
1 de fevereiro de 2026
Oeste Cidade
CRÔNICA DO MAGRÃO

​O último Km: onde a humanidade se despediu

Havia uma esperança naquele dia, talvez um céu azul, como em tantos outros inícios de semana. Mas para aquela mulher, aquele dia não seria apenas mais um. Seria o último trecho de sua caminhada na vida, arrastada não por um acidente cruel do destino, mas pela indiferença assassina de um homem. Um quilômetro e tanto de asfalto rasgou não só sua carne, mas a pouca fé que ainda tínhamos na essência humana.
​Ela não era um número, não era uma manchete efêmera. Ela era alguém. Tinha um nome, uma história, talvez sonhos que o acaso, ou melhor, a selvageria, ceifou. Suas pernas, que a levaram por tantos caminhos, foram dilaceradas não por uma máquina sem alma, mas por um ser que, naquele momento, se revelou mais máquina que homem. Amputar as pernas foi uma tentativa desesperada de enganar a morte, de lhe roubar mais um sopro de vida, um pedaço de tempo que lhe era negado. Mas o destino, ou a crueldade implacável, já havia carimbado sua sentença. E ela partiu.
​E agora?
​A pergunta ecoa no vazio de nossa indignação. Onde está a humanidade de um criminoso dessa natureza? Ela se desfez em algum ponto daquele quilômetro e tanto de arrasto. Não há razão, não há justificativa, não há fúria que explique a ausência total de empatia, a incapacidade de parar, de ver no outro um semelhante, um ser vivo.
​A humanidade, nesse caso, não se perdeu. Ela foi expulsa, triturada sob as rodas da indiferença e da selvageria. Não é uma questão de erro ou de falha; é a completa ausência de um elo, de um mínimo de decência que nos distingue dos animais mais primitivos. Animais, muitas vezes, matam por instinto, por fome. Mas o que motivou essa barbárie? O que habita a mente de quem é capaz de tal atrocidade?
​Ficamos com a dor. A dor de uma vida ceifada de forma tão brutal, a dor da família que agora carrega não apenas o luto, mas a cicatriz de uma partida sem sentido. E ficamos com o medo. O medo de viver em um mundo onde a fragilidade da vida pode ser quebrada a qualquer momento pela insensatez alheia.
​A humanidade do criminoso? Talvez ela nunca tenha existido de fato, ou se dissolveu em um abismo tão profundo que nenhuma lei, nenhuma pena, conseguirá preencher. Resta-nos a lamentar, a clamar por justiça e, mais do que tudo, a tentar resgatar em nós o que nos torna humanos: a capacidade de sentir, de chorar, de se indignar e de lutar para que nenhum outro “último Km” seja percorrido sob o jugo de tamanha desumanidade.
​E agora? Agora, fica o grito silenciado daquela mulher, um lembrete cruel de que a civilização é um verniz fino que pode ser estilhaçado a qualquer momento pela bestialidade que alguns carregam dentro de si. Meus profundos sentimentos a família dessa mulher que perdeu a vida pela insensatez humana que parece não ter limites.

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