Dizem que a história é escrita pelos vencedores, mas a verdade é que ela é escrita por quem decide sair de casa. Quando Belchior cantou que “amar e mudar as coisas” era seu maior interesse, ele descreveu a alma de toda marcha. Não se caminha centenas de quilômetros por esporte; caminha-se porque o coração está pesado de indignação e a alma tem fome de decência.
O Sal da Terra: Gandhi e o Despertar (1930)
Tudo começa com o som de um cajado batendo no chão seco da Índia. Em 1930, Mahatma Gandhi iniciou a Marcha do Sal. Foram 390 quilômetros para protestar contra o monopólio britânico sobre algo tão simples quanto o sal da terra. Ao colher um punhado de cristais na praia de Dandi, ele não apenas quebrou uma lei; ele quebrou a espinha dorsal do colonialismo. Aqueles passos provaram que o poder não reside em quem tem as armas, mas em quem tem a coragem de ser pacífico e desobediente.
A Voz que Atravessa Oceanos: Washington e Selma (1963-1965)
Três décadas depois, o espírito de Gandhi vestiu-se de terno em Washington D.C. Em 1963, a Marcha sobre Washington por Empregos e Liberdade reuniu 250 mil pessoas sob o olhar atento de Abraham Lincoln. Ali, Martin Luther King Jr. transformou o cansaço dos manifestantes em um “sonho”.
Mas o sonho precisava de chão. Em Selma (1965), a marcha para Montgomery enfrentou o “Domingo Sangrento”. O impacto visual de cidadãos sendo espancados apenas por quererem votar forçou a consciência de uma nação. Selma nos ensinou que a ponte para a justiça é pavimentada com a persistência de quem se levanta após cada queda.
A Explosão do Novo: Maio de 68 e os Cem Mil (1968)
O ano de 1968 foi o ano em que o asfalto do mundo inteiro tremeu. Na França, os estudantes e operários marcharam sob o lema “É proibido proibir”. A indignação era contra as estruturas arcaicas; era uma marcha pelo direito à imaginação.
Ao mesmo tempo, no Brasil sob sombras autoritárias, a Passeata dos Cem Mil tomou o Rio de Janeiro. Artistas, freiras, estudantes e intelectuais caminharam braços dados. Era a prova de que a ditadura podia calar as urnas, mas não conseguia paralisar as pernas de um povo que buscava o “povo no poder”.
O Vento da Liberdade na Polônia (1980)
Na Europa Oriental, a marcha tomou a forma de uma greve que se moveu. Em Gdansk, o movimento Solidariedade (Solidarność), liderado pelo eletricista Lech Wałęsa, provou que a indignação operária podia derrubar impérios. Quando milhões de poloneses marcharam juntos, eles não apenas pediam melhores salários, mas o fim da mentira sistêmica. A Polônia foi o primeiro dominó a cair, mostrando que o totalitarismo teme, acima de tudo, a união de quem caminha com o vizinho.
O Brasil em Travessia: A Caminhada de 2026
Hoje, o Brasil vive seu próprio momento de caos e busca por sentido. A Caminhada pela Liberdade e Justiça, iniciada pelo deputado Nikolas Ferreira, percorrendo os 240 km de Paracatu a Brasília, insere-se nessa tradição de usar o sacrifício físico como manifesto político.
Neste cenário de insegurança jurídica e polarização extrema, o ato de marchar tenta resgatar a “decência” como bandeira. O significado é profundo para o momento atual: é a tentativa de converter a indignação das redes sociais em suor real na rodovia. Ao chegar no coração do poder, a marcha leva consigo as queixas de uma parcela da população que vê nas prisões e nas decisões judiciais recentes uma afronta à liberdade. É o corpo humano servindo como a última fronteira do protesto quando as instituições parecem distantes da realidade das ruas.
O Significado Eterno do Passo
O que une todas essas marchas? É a percepção de que a história é um organismo vivo. Marchar é, em última análise, um ato de esperança. Só caminha quem acredita que existe um destino melhor à frente. Como disse o poeta, “o caminho se faz ao caminhar”. E o Brasil, entre tropeços e passos firmes, continua sua longa jornada em busca de si mesmo.
“CAMINHANDO E CANTANDO
SEGUINDO A CANÇÃO
SOMOS TODOS IGUAIS
BRAÇOS DADOS OU NÃO”….



