Existe uma melancolia tênue pairando sobre o campo de futebol, um suspiro nostálgico que reconhece a era que se esvai. E no centro desse crepúsculo da genialidade indomável, brilha (e às vezes ofusca) a figura de Neymar Júnior. Ele não é apenas um jogador; ele é o último grande poeta de chuteiras, o epílogo de uma linhagem de artistas brasileiros que tratavam a bola não como ferramenta, mas como parceira de dança.
Ele herdou o reino de Pelé, Ronaldos, Rivelino e Garrincha, Maradona, mas nasceu na época dos robôs e dos algoritmos, onde a eficiência tática e a métrica de desempenho ameaçam sufocar a arte pura do drible inútil, aquele toque que existe apenas para humilhar o marcador e celebrar a beleza do movimento.
O Menino da Vila e o Estalo da Eletricidade
Seu surgimento foi um clarão elétrico. Em Santos, ele não jogava; ele zombava da gravidade. Seus dribles eram zigue-zagues de puro atrevimento, o gingado que o asfalto ensinou, traduzido para o gramado. Seu cabelo moicano era uma coroa desobediente, e seu sorriso, largo e infantil, prometia o futuro.
Neymar nos deu a última sensação de que o futebol ainda poderia ser anárquico, que a genialidade individual, o estalo, o flair brasileiro, podia desmantelar o sistema mais rígido.
A Tragédia do Peso
Mas o destino de um craque moderno é pesado. Ele não carrega apenas a camisa; carrega o peso de ser uma marca, uma empresa, o último símbolo de um futebol que o mundo insiste em padronizar.
Sua poesia, tantas vezes linda e cristalina, é constantemente interrompida pelo barulho do dinheiro, pelas polêmicas externas, pelas lesões que parecem vir não apenas do choque físico, mas da fratura entre o que ele é e o que o mundo exige que ele seja.
Quando ele está em campo, no seu ápice, ele é a pintura em movimento. O passe que só ele vê, a cavada que é quase um insulto à física, o gol que parece ter sido ensaiado por anjos. Nesses momentos, ele é o rei.
Mas há o outro lado: a queda teatral, a face controversa, a sensação de que o grande palco europeu, com suas luzes e suas expectativas frias, drenou parte da alegria selvagem que o fazia ser quem ele era na Vila Belmiro.
O Legado Incompleto
Neymar é o craque que nos fará questionar: Onde está a próxima poesia?
Com a ascensão de atletas com precisão cirúrgica, mas que raramente possuem a alma bagunceira e inspirada do futebol-arte, Neymar talvez seja, de fato, o último a carregar a chama da imprevisibilidade lírica.
Sua crônica, ainda sendo escrita, é a história de um gênio que dançou na chuva dourada do talento, mas que lutou contra o vendaval da fama e da transição. Ele é o último sopro da magia, um drible que se recusa a ser catalogado, um suspiro final antes que o futebol, talvez, se torne apenas uma ciência exata.
Ele é o rei, mas um rei com a coroa rachada, a nos lembrar da beleza trágica de ser, talvez, o último a dançar “à brasileira” no palco global.



