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3 de fevereiro de 2026
Oeste Cidade
CRÔNICA DO MAGRÃO

A Crônica Poética do Chão e da Alma

Futebol é, de fato, a vida em 90 minutos, condensada, destilada e servida em doses de pura adrenalina e desalento. É a arte que se desenha no gramado, mas se rasga na alma da gente. É um roteiro sem ensaio, onde o sorriso e a lágrima coexistem na mais cruel das simetrias.

​O Fio da Contradição

​Há uma contradição sublime na esfera que rola. O futebol é a poesia dos pés, a matemática imprecisa do chute, a coreografia da falta. Mas é, sobretudo, a exposição nua da sorte humana.
​O campo é um pedaço de chão onde a utopia e a miséria andam de mãos dadas. Um passe açucarado de calcanhar, um gol de bicicleta que rasga a rede – isso é a alegria pura, o instante onde a vida faz sentido e a dor é suspensa. Mas logo depois, o apito final, e a mesma bola que beijou a glória se transforma no peso frio da derrota.
​O futebol é foda como a vida porque não aceita empate de emoções. Para que um celebre, outro tem que ranger os dentes.

​Os Papéis Invertidos

​Você viu: os flamenguistas estão extasiados embececidos de extase de felicidade no Estádio Nacional em Lima no Peru, o peito estufado de vermelho e preto, a garganta rouca de tanto gritar o nome do herói da vez. Se sentem invencíveis pois a vitória é um atestado de que, pelo menos hoje, o mundo o escolheu. O hino soa como uma oração atendida.
​Enquanto isso, os palmeirenses choram nas arquibancadas da vida, enxugando as lagrimas na bandeira que agora parece pesada. A vida como no futebol exige coragem e o Palmeiras entrou em campo transmitindo medo de jogar, ir para cima do Flamengo, mostrando que sorte sempre vai favorecer o destemido. Se acovardou e agora o sabor da cerveja vai ser amargo, e a injustiça do jogo é a mesma injustiça do dia a dia. A derrota não é só do time; é pessoal, é a pontuação final de uma esperança que foi brutalmente ceifada.
​E a beleza poética reside aí: na virada implacável do destino. A certeza de hoje é a incerteza de amanhã. O que era choro vira carnaval, o que era carnaval vira luto. O tempo no relógio é curto, mas a memória dos jogos se eterniza, criando cicatrizes de orgulho e feridas que só o próximo domingo pode curar.

​O Grito e o Silêncio

​O futebol é, no fim das contas, a celebração do coletivo que se dissolve no singular. Somos milhões gritando juntos, mas na hora da vitória ou da derrota, cada um está sozinho com a sua fé.
​É a catarse que nos permite ser vulgares, ingênuos, poetas e brutos ao mesmo tempo. É a única arena onde um desempregado e um banqueiro sentem a mesma dor lancinante quando a bola bate na trave.
​E quando o juiz sopra o fim, a gente sai dali sabendo que a vida continua – dura, desigual, imprevisível – mas levamos no peito a certeza de que vivemos, por alguns instantes, a mais bela e a mais cruel das verdades: a de que o jogo sempre continua, e é preciso levantar para torcer de novo.

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