Renato Russo era um otimista incurável, embora passasse por pessimista. Ao engavetar “Que País é Este” em 1978, ele cometeu o erro mais nobre que um artista pode cometer: acreditou no prazo de validade da própria indignação. Achou que o Brasil, em algum momento, deixaria de ser uma paródia de si mesmo e que sua letra se tornaria uma peça de museu. Cinquenta anos depois, a canção não é um revival; é um diagnóstico terminal de um país que insiste em não sarar.
Saímos de uma ditadura para entrar em uma “redemocratização” que mais parece um estado de convalescença eterna. Nossa democracia não cresce; ela apenas engatinha sobre tapetes caros de gabinetes em Brasília, trocando fraldas de velhas oligarquias. É uma democracia de berçário, frágil para o cidadão, mas blindada para o privilégio.
Como explicar, com a serenidade que o Direito exige, que o país onde se prega a “lisura das instituições” é o mesmo onde contratos de R$ 120 milhões florescem na sombra de tribunais superiores? Enquanto o brasileiro médio luta contra a inflação do supermercado, esposas de ministros celebram contratos milionários com bancos amigos. Vivemos o ápice do cinismo institucional: magistrados que saltam sobre o degrau do concurso público — o filtro básico da competência técnica — para sentarem-se no Olimpo jurídico sem o devido saber, mas com as conexões certas. O verdadeiro “trânsito em julgado” no Brasil é o trânsito de influências, muitas vezes hospedado em resorts de luxo levantando suspeitas pela Polícia Federal a quem deveria, teoricamente, julgar com a isenção de uma estátua de olhos vendados.
Para completar o cenário de realismo fantástico, o comando da nação empenha-se em uma gincana de absurdos. Do alto do púlpito, ouve-se que o estudo é supérfluo para os humildes e que o crime é um subproduto da conveniência. É a glamourização da ignorância e a vitimização do algoz. No Brasil de hoje, o crime não apenas compensa; ele é justificado pela retórica oficial.
E quando a situação interna se torna insustentável, apela-se para a diplomacia da perfumaria. O figurino é impecável para o palanque da ONU. Lá, entre apertos de mão e resoluções vazias, o Brasil se apresenta como o pacificador do mundo. Borrifa-se uma fragrância de “protagonismo global” para mascarar o cheiro de pólvora que impregna o dia a dia de nossas capitais. É o síndico que quer mediar a paz no Oriente Médio enquanto o seu próprio prédio é governado por facções e o telhado desaba sobre os inquilinos.
A incoerência é total. Como pode um país que figura entre os mais violentos do mundo pretender ditar regras de segurança internacional? A política externa brasileira virou um baile de máscaras onde o anfitrião esqueceu que, ao voltar para casa, não terá nem a chave da porta, nem a autoridade moral para pedir silêncio aos vizinhos.
A pergunta de Renato Russo continua ecoando, mas com uma diferença crucial. Em 1978, era um grito. Em 1987, uma esperança ferida. Em 2026, é apenas a constatação de um cansaço. Que país é este? É o país onde a indignação virou feriado e a sujeira debaixo do tapete já criou montanhas tão altas que os donos do poder já podem construir resorts no topo delas.



