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28 de maio de 2026
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CRÔNICA DO MAGRÃO

​O Gol de Placa em um Estádio que Desaba

O Brasil assiste, entre o espanto e a resignação, ao triunfo da política espetáculo sobre a realidade matemática. A aprovação da mudança na escala de trabalho pelo Congresso é o retrato acabado de um país que transformou a formulação de políticas públicas em um campeonato de torcidas organizadas. Políticos e partidos, carentes de profundidade técnica e movidos pelo instinto primitivo da sobrevivência eleitoral, comemoram nas redes sociais o que vendem como uma vitória histórica. É o “gol de placa” comemorado com euforia, enquanto o campeonato inteiro é negligenciado e a estrutura do estádio ameaça ruir.

​O debate, que deveria ser balizado por dados, análises de impacto regulatório e respeito às profundas assimetrias regionais do Brasil, foi sequestrado por uma discussão idônea e improdutiva entre uma esquerda que se arvora o monopólio da virtude e uma direita muitas vezes incapaz de articular o contraponto técnico. Nesse Fla-Flu ideológico e atrasado, a lógica econômica foi tratada como uma heresia.

Esqueceu-se que a economia não tem ideologia; ela tem regras de funcionamento tão inflexíveis quanto as leis da física.
​O erro de partida dessa canetada uniforme é a presunção de que o mercado é um bloco homogêneo e que o caixa das empresas é um poço sem fundo. Ao impor uma regra única para o salão de beleza no interior do Nordeste, o supermercado de periferia e a grande indústria automatizada do Sudeste, o legislador ignora que as margens de lucro de mais de 90% dos negócios brasileiros — compostos por micro e pequenas empresas — são milimétricas, flutuando entre a sobrevivência e a falência.

​Ao aplicar a Teoria da Escolha Pública, o cenário se desenha com clareza cristalina: o benefício da medida é imediato, visível e concentrado na narrativa eleitoral dos proponentes. Já as consequências desastrosas são difusas e postergadas no tempo. Os políticos capitalizam o bônus político hoje, deixando o ônus para ser pago amanhã pelo setor produtivo e, em última análise, pelo próprio trabalhador que alegam defender.
​As engrenagens da realidade já começaram a se mover, e os caminhos de ajuste do mercado são inevitáveis e dolorosos:

​A Inflação de Serviços: Setores que dependem de atendimento contínuo (comércio, hotelaria, saúde e gastronomia) enfrentarão uma explosão nos custos de pessoal. Sem margem para absorver o impacto, o repasse para os preços é matemático. O consumidor, que já carrega o fardo de uma estrutura tributária caótica, “pagará o pato” no balcão, vendo seu poder de compra corroído.

​A Retração da Atividade: Negócios de bairro, incapazes de arcar com contratações complementares, simplesmente reduzirão o horário de funcionamento ou fecharão as portas em determinados dias. Menos atividade econômica significa menos riqueza circulando e menor arrecadação.

​O Desemprego Estrutural e a Automação: Onde o custo do trabalho se tornar proibitivo perante a baixa produtividade nacional, o incentivo para a substituição de pessoas por tecnologia será acelerado. Totens, aplicativos e automação deixarão de ser modernização para virar tábua de salvação, eliminando postos de trabalho formais.

​A relação entre capital e trabalho no Brasil foi fraturada por uma demagogia que insiste em colocar empregados e empregadores em trincheiras opostas, como se o sucesso de um dependesse da ruína do outro. Escondidos atrás dessa fumaça ideológica, os políticos mascaram as mazelas de uma estrutura estatal falida, burocrática, corrupta e pesada, que cobra impostos de primeiro mundo e entrega serviços de terceiro, enquanto sufoca quem gera emprego.

​Ao fim e ao cabo, a física dos custos sempre se impõe sobre a metafísica das boas intenções legislativas. O mercado encontrará o seu novo ponto de equilíbrio, mas o preço dessa transição artificialmente forçada será cobrado na moeda do desemprego invisível, da informalidade e do custo de vida mais alto. Enquanto o país for governado por torcedores que celebram a ilusão do jogo de hoje sem se importar com a sustentabilidade do campeonato, o futuro continuará sendo a principal vítima da politicagem.

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