A imagem de Chico Buarque cantando em Cuba, sorridente e incensado, é o retrato perfeito do que se convencionou chamar de “esquerda caviar”. Há uma hipocrisia quase estética em ver um artista que usou sua genialidade inegável para combater a mordaça da ditadura militar brasileira — época em que, ironicamente, produziu sua obra mais visceral e relevante — aplaudir de pé um regime que encarcera opositores, silencia artistas independentes e impõe ao seu próprio povo uma rotina de carência absoluta, filas para o pão e falta de perspectiva.
Para o artista consagrado, Cuba é um cenário romântico de resistência, um fetiche ideológico vivido em hotéis de luxo e jantares oficiais. Para o cubano comum, é apenas uma prisão a céu aberto. A liberdade de expressão, pelo visto, é um valor universal que só vale quando o censor veste a farda errada.
A “Máfia do Dendê” e o Feudo dos Consagrados
Quando descemos para o terreno prático das leis de incentivo no Brasil, o verniz da militância desbota de vez. A alcunha de “Máfia do Dendê”, que há décadas circula nos bastidores do meio cultural para se referir ao cordão umbilical que une grandes nomes da MPB — como Caetano Veloso e Gilberto Gil — às tetas do orçamento público, não é gratuita.
Embora o discurso oficial seja o da “democratização da cultura”, a realidade nua e crua é a privatização do incentivo por um oligopólio de celebridades. O mecanismo é um jogo de cartas marcadas:
O governo abre mão do imposto (dinheiro que deveria ir para saúde, educação ou segurança).
As grandes corporações escolhem para quem doar esse dinheiro renunciado.
E adivinhe quem elas escolhem? Os mesmos de sempre. Aqueles que já são milionários, que já têm as maiores produtoras, os canais de distribuição e o monopólio da mídia.
O resultado é um feudo cultural intransponível. Enquanto o jovem músico da periferia ou o artista do interior não consegue um centavo para financiar um projeto autoral, as produtoras dos medalhões da MPB captam milhões para rodar turnês com ingressos a preços proibitivos para o cidadão comum. É a redistribuição de renda às avessas: o imposto de todos financiando o show de elite dos eleitos.
O Preço do Silêncio e da Conveniência
O que Millôr percebeu antes de todo mundo é que o idealismo dessa patota tem preço, prazo de validade e CNPJ. A militância desses ícones tornou-se uma moeda de troca em um mercado de favores mútuos. Eles oferecem o prestígio de suas biografias para blindar governos e ideologias de estimação; em troca, recebem a manutenção de seus privilégios, palcos garantidos e a chancela de “guardiões da moralidade nacional”.
Eles nunca viveram a escassez que romantizam em Cuba, nem a dificuldade do artista brasileiro que tenta sobreviver sem o carimbo do compadrinhamento político. No fim das contas, a genialidade do passado virou o salvo-conduto para a desonestidade intelectual do presente. Millôr, lá de onde estiver, continua coberto de razão: atrás de todo grande discurso de salvação social, quase sempre há uma conta bancária muito bem alimentada.



