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Presidente Prudente
11 de agosto de 2026
Oeste Cidade
CRÔNICA DO MAGRÃO

Oeste Paulista: A riqueza que passou e o projeto de desenvolvimento que nunca chega

​Diz-se que Presidente Prudente é a capital da Alta Sorocabana e o centro natural do Oeste Paulista. O mapa confirma a geografia; a história consolida o peso. Mas este título carrega um contraste incômodo que se arrasta há décadas: habitamos o estado mais rico da Federação — responsável por cerca de um terço de toda a riqueza nacional —, mas figuramos sistematicamente nas franjas do desenvolvimento paulista. Não há obra do acaso aqui. O que testemunhamos é o esgotamento definitivo de um modelo de ocupação econômica combinado a uma política pública que viciou-se em soluções paliativas.

​Para decifrar o nó do presente, o recuo ao passado é obrigatório. A ocupação efetiva do Oeste começou no final do século XIX, na esteira da marcha cafeeira. A fertilidade da terra e o clima desenharam um ciclo de opulência que durou quase meio século. Contudo, a estrutura nasceu com um vício de origem: a riqueza concentrava-se em poucas mãos e a economia restringia-se à monocultura. Ao contrário do eixo Campinas-Sorocaba-São José dos Campos, onde o lucro da terra financiou a calha industrial, as ferrovias e a diversificação urbana, o Oeste Paulista exportou seus dividendos. Quando o café ruiu, a região não tinha bases sólidas para se reinventar. Ficamos para trás, reféns de ciclos agrícolas voláteis e de baixo valor agregado.

​O presente traduz essa herança em números brutais. Das 53 cidades que compõem a nossa região, apenas 16 possuem um PIB que sinaliza alguma autonomia econômica, mas também dependem de emendas parlamentares, como as outras 37 cidades que vivem em regime de dependência crônica desses repasses estaduais e federais. Nossa renda per capita média é cerca de 30% inferior à média do estado, e o Índice de Desenvolvimento Humano fica abaixo de regiões bem mais distantes da capital. Criamos um paradoxo regional: Presidente Prudente consolidou-se como um polo universitário vibrante, mas o mercado local, ancorado no comércio de baixa remuneração e na ausência de indústrias tecnológicas, não retém esses cérebros. Financiamos a formação dos nossos jovens para que o leste do estado colha os frutos de sua produtividade. É a evasão do nosso ativo mais valioso: o futuro.

​Esse esvaziamento econômico reflete-se — e se agrava — na nossa fragilidade política. É alarmante que 1,2 milhão de habitantes disponham de apenas um deputado estadual e um deputado federal com raiz e atuação orgânica em Brasília. Mas o vício não é apenas quantitativo; é de perspectiva. A política local habituou-se ao “atendimento de varejo”. Celebram-se emendas parlamentares para ambulâncias, recapeamentos ou custeios de Santas Casas como se fossem grandes conquistas estruturais. São medidas necessárias, decerto, mas atacam apenas os sintomas. É o eterno remendo em tecido podre.

​Perdemos a ambição que outrora moveu prefeitos empreendedores como Paulo Constantino e Agripino Lima que, guardadas as devidas contradições históricas, sabiam projetar a infraestrutura e a saúde para além do horizonte de seus mandatos. Hoje, a régua da competência desceu ao subsolo: o governante que mantém a cidade limpa é aplaudido como genial. Contentamo-nos com as migalhas do orçamento.

​O horizonte exige ruptura, mas é preciso encarar o espelho sem ilusões: não há um líder carismático a caminho para nos resgatar, nem um projeto salvador desenhado nas gavetas de São Paulo ou de Brasília. Esperar por um messias político é perpetuar a nossa própria decadência. Enquanto as nossas 53 cidades continuarem operando no isolamento — como um arquipélago de pequenas urgências onde vaidades partidárias e disputas locais se sobrepõem ao bem comum —, continuaremos vivendo com o pires na mão, implorando pela caridade de emendas parlamentares de varejo. Essa dependência crônica anestesiou nossa capacidade de criar.

​A mudança de paradigma e a construção de um modelo de desenvolvimento sustentável não virão de fora. O Oeste Paulista tem a faca e o queijo na mão: possui um capital humano extraordinário saindo de suas universidades e riquezas naturais abundantes — terra, água, biomassa e uma radiação solar privilegiada. O nosso futuro não reside na cópia tardia da indústria do século XX, mas em transformar a região no hub de transição energética do estado, convertendo pastagens e insolação em usinas de biogás, biometano e energia limpa, além de lutar pela reativação da nossa logística multimodal e por incentivos fiscais regionalizados.

​Se não temos uma representação política robusta em Brasília ou na capital para fazer valer essa transição, a resposta terá que surgir da articulação interna entre a academia, o setor produtivo e uma sociedade civil que se recuse a aceitar migalhas. Não podemos permitir que a “capital do Oeste Paulista” seja apenas uma coordenada geográfica ou uma menção honrosa em livros de história. Ou assumimos o protagonismo com o potencial que temos hoje, ou continuaremos assistindo nossos jovens pegarem a Rodovia Raposo Tavares com passagem só de ida, deixando para trás uma terra rica por natureza, mas eternamente empobrecida em suas perspectivas.

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Redação

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