Muito se ouve em Brasília o discurso legítimo de retomar a autonomia nacional, reduzir décadas de alinhamento automático com os Estados Unidos e afirmar o Brasil como voz independente entre as nações do Sul Global. Mas, ao mesmo tempo, vemos um movimento contraditório: facilita-se financiamentos, concessões e parcerias com a República Popular da China em ritmo acelerado, quase sem debate público aprofundado, sem transparência nos contratos e sem mapear os custos de longo prazo — como se diversificar parcerias significasse entregar, sem garantias, pedaços da nossa infraestrutura estratégica.
É preciso entender de uma vez: a atuação da China não é caridade, nem investimento desinteressado. Segue uma estratégia geopolítica clara, calculada e repetida com sucesso em todo o mundo: garantir o abastecimento seguro de commodities essenciais (minério, soja, petróleo, celulose) que alimentam sua industrialização massiva; construir rotas logísticas alternativas que rompam o domínio marítimo ocidental; e expandir influência política e econômica por meio de empréstimos e projetos que contornam as regras mais rígidas de organismos como FMI e Banco Mundial.
O modelo já deixou lições duras em outros países:
• Sri Lanka: o projeto do Porto de Hambantota, financiado com empréstimos chineses de taxas altas e cláusulas pouco claras, tornou-se insustentável. Sem condições de pagar a dívida, o país cedeu o terminal estratégico em concessão por 99 anos — exemplo clássico da chamada “armadilha da dívida”.
• América Central e Andina: projetos portuários e ferroviários no Peru e Panamá trouxeram obras rápidas, mas geraram desequilíbrios comerciais, baixa integração com a indústria local e tensões sobre o controle de rotas cruciais para o comércio hemisférico.
• Argentina: empréstimos volumosos aliviaram crises cambiais momentâneas, mas aprofundaram volatilidade e dependência de renovações constantes de crédito, com termos frequentemente mantidos em sigilo.
No Brasil, os ganhos são visíveis e não podem ser negados: a China é nosso maior parceiro comercial há mais de dez anos, absorvendo cerca de um terço das exportações; investiu massivamente em linhas de transmissão, usinas renováveis, montadoras de veículos elétricos e projetos como a Ferrovia Bioceânica, que promete encurtar o escoamento da produção do Centro-Oeste para a Ásia. O capital chinês preencheu lacunas que o Estado brasileiro, paralisado por limitações fiscais e burocráticas, não conseguia cobrir sozinho.
Mas o preço dessa pressa aparece pouco nos discursos oficiais:
• Assimetria estrutural: vendemos quase exclusivamente matéria-prima de baixo valor agregado; compramos manufaturados, componentes e tecnologia importados da China, com pouca transferência de conhecimento ou desenvolvimento de cadeias produtivas locais duradouras.
• Falta de transparência: contratos de concessão de portos, ferrovias e redes energéticas — bens essenciais à soberania — são frequentemente firmados sem divulgação integral, dificultando fiscalização legislativa e acompanhamento social.
• Risco de concentração: a diversificação prometida para escapar da influência estadunidense caminha para substituir uma dependência histórica por outra, com riscos agravados em cenários de tensões geopolíticas globais.
A confusão central está em chamar isso de soberania. Soberania não é escolher um novo parceiro para seguir suas regras e interesses — é ter autonomia para negociar com todos, preservando o controle sobre o que é nosso, definindo cláusulas claras, exigindo conteúdo local, capacitação técnica e sustentabilidade ambiental e social.
Não se trata de demonizar a China, nem de fechar o país ao investimento externo. Parcerias são fundamentais para o crescimento. O erro é aceitar acordos fragmentados, urgentes e desregulados, como se o curto prazo resolvesse problemas estruturais.
O Brasil não precisa ser satélite de Washington nem de Pequim. Precisamos de estratégia própria: aproveitar o capital e os mercados que a China abre, mas com regras claras, auditoria pública e visão de décadas, não de mandatos políticos.
A verdadeira soberania não está nos discursos de palanque. Está na capacidade de fazer acordos que fortaleçam o nosso povo, a nossa indústria e as nossas instituições — não que tornem o país novamente refém de uma potência estrangeira.


