Há frases que funcionam como espelhos incômodos. Elas atravessam o tempo e esperam a história se repetir para reaparecerem no debate público.
Carlos Lacerda (1914–1977) — jornalista polemista, orador de verve incendiária e uma das figuras centrais e controversas da política brasileira no século XX — cravou na década de 1950 um diagnóstico que hoje soa assustadoramente contemporâneo:
”Não se deve continuar a ser cidadãos conformados de uma nação onde quem rouba é quem mais manda e quem mais manda mais rouba. O país não deve ser o paraíso do tolo e a delícia do esperto…”
Proferida no calor do ambiente político da época, a frase hoje ganha contornos de uma profecia trágica. Mudaram-se as décadas, as moedas, as redes de comunicação e os governos, mas a engrenagem do “esperto” continua a girar, lubrificada pela falência moral e institucional de um país que aprendeu a conviver com o absurdo.
A Engenharia da Impunidade
No andar de cima, o figurino mudou, mas o método permanece. Assistimos, atônitos ou anestesiados, a um desfile de candidatos e políticos tarimbados com históricos gravíssimos de corrupção, réus confessos, condenados ou salvos por manobras processuais e prescrições providenciais.
Longe de representarem exceções, esses personagens tornaram-se o próprio padrão da vida pública. A “esperteza” de que falava Lacerda sofisticou-se: não se trata apenas de furtar recursos, mas de capturar as próprias instituições para que elas sirvam de blindagem. Quando a justiça se contorce para adequar leis aos interesses dos poderosos e quando órgãos de fiscalização perdem os dentes para não ferir aliados, decreta-se a falência da República. Os espertos não apenas mandam; eles reescrevem as regras para garantir que continuem mandando.
O Cidadão Rebaixado a Torcedor
Entretanto, a tragédia não reside apenas na astúcia dos corruptos, mas no comportamento da plateia. O elemento mais devastador da nossa crise contemporânea é a transformação do eleitorado em uma claque dogmática — uma massa de torcedores fanáticos dispostos a perdoar qualquer crime, desde que cometido pelo “seu” camisa dez.
A moralidade pública foi substituída pelo sectarismo cego. O debate político perdeu a ética e ganhou a dinâmica das arquibancadas de futebol:
O erro do adversário é visto como um crime inafiançável e prova inequívoca de vilania.
O mesmo erro do aliado é relativizado, justificando-se o injustificável sob a desculpa de “perseguição”, “conspiração” ou “mal menor”.
O torcedor político não exige honestidade, programa de governo ou virtude moral; exige apenas a vitória sobre o rival. Passa panos em esquemas milionários, ignora desvios comprovados e aceita ser enganado, desde que a sua “equipe” permaneça no poder.
A Ilusão do Paraíso
Esse dogma cego é a garantia de sobrevivência dos espertos. Ao renunciar ao pensamento crítico e à exigência de integridade dos seus representantes, o cidadão abdica da própria condição de sujeito político. Torna-se, exatamente como advertia a citação clássica, o “tolo” perfeito — aquele que financia a festa com o seu trabalho e o seu imposto, mas aplaude os organizadores enquanto estes lhe esvaziam os bolsos.
Lacerda nos lembrava de que não se deve continuar a ser cidadãos conformados. Enquanto o voto for tratado como bandeira de torcida e a corrupção for relevada em nome do dogmatismo ideológico, o Brasil continuará prisioneiro deste ciclo vicioso: um paraíso sob medida para os espertos, sustentado pela ingenuidade voluntária dos tolos.


