A imprensa, em sua função clássica, deveria ser o Quarto Poder: o cão de guarda, o baluarte da liberdade individual contra os excessos do Estado. No Brasil polarizado de hoje, contudo, a percepção que se impõe é a de que a grande mídia trocou o papel de cão de guarda pelo de cão pastor, operando não contra o sistema, mas com ele, em uma aliança pragmática, mas moralmente promíscua.
A Escolha do Inimigo Maior
Para entender essa relação, é preciso reconhecer o ponto de inflexão. Durante o auge da crise institucional, o Bolsonarismo foi encarado por vastos setores da imprensa tradicional como o inimigo existencial da democracia liberal. Nesse cenário de “guerra fria”, o Supremo Tribunal Federal (STF), e figuras como Alexandre de Moraes, assumiram o papel de diques institucionais, barrando o que era visto como a marcha autoritária.
A grande mídia, composta por corporações com interesses econômicos na estabilidade do mercado e na manutenção do status quo, tomou uma decisão estratégica: apoiar a força que prometia ordem, mesmo que essa força viesse sob a forma de hipertrofia judicial. Passou a defender as ações do STF não por convicção ideológica plena em cada detalhe, mas por considerá-las o “mal menor” necessário para evitar o colapso institucional.
A Tolerância Seletiva e o Custo da Liberdade
É nesse ponto que a relação se torna promíscua. A defesa da “democracia institucional” ofuscou a defesa dos princípios liberais clássicos. A tolerância aos atos de Alexandre de Moraes — a abertura de inquéritos de ofício, a supressão de perfis e a expansão de competências da corte — ocorre porque a mídia enxerga esses atos como tiros de metralhadora dirigidos a um alvo específico (o extremismo de direita).
O problema é que, ao aceitar a suspensão de garantias individuais em nome da ordem, a imprensa abriu mão de seu próprio mandato. O silêncio ou a minimização da cobertura sobre a supressão de liberdades (de expressão, de ir e vir, de opinião) não é desatenção; é um custo aceito na aliança. O cão de guarda é silenciado para não latir para o próprio aliado. O sistema não é criticado, mas sim aplaudido em seus desmandos, desde que o alvo da repressão seja o inimigo comum.
A Dependência Econômica
Por trás da toga e do palanque, há o capital. A grande mídia é um negócio que vive de publicidade (incluindo a estatal) e de acesso privilegiado ao poder. Atacar o governo eleito ou o Judiciário que o sustenta é arriscar contratos, parcerias e fontes.
Portanto, a realidade dessa “operação” não é apenas política; é sistêmica e financeira. A grande mídia opera com o sistema porque ela é parte do sistema. Ela defende a estabilidade, tolera a seletividade judicial e apoia acertos e erros do governo na medida em que isso garante a manutenção da sua própria estrutura de poder e influência, mesmo que o preço seja a corrosão de sua credibilidade e o abandono de seu dever primordial de ser a voz incondicional da liberdade.



