Se a sede da CBF na Barra da Tijuca é um palácio de mármore voltado para o umbigo de seus clãs, os escritórios da Premier League, em Londres, funcionam como a sede de uma multinacional de tecnologia. A diferença fundamental não está apenas no idioma ou na moeda, mas na própria alma do negócio: quem manda no jogo?
Na Inglaterra, o divórcio entre a política e o campo aconteceu em 1992. Até então, os grandes clubes ingleses viviam sob o jugo da The FA (a federação deles), em um modelo muito parecido com o brasileiro: violência, corrupção, clubes individados, e uma burocracia que ficava com a maior parte do bolo. Os clubes decidiram dar um basta. Eles se separaram da federação para criar uma liga independente. O resultado foi uma revolução linear que transformou o futebol em um produto premium.
A Divisão do Poder
Diferente da CBF, onde o poder emana das federações estaduais que nada produzem, na Premier League cada um dos 20 clubes da Série A é um acionista. O sistema é uma democracia direta: um clube, um voto. A federação (FA) mantém apenas uma “Ação de Ouro” (Golden Share), que lhe dá poder de veto em questões de tradição (como mudar o nome de um clube), mas ela não toca no dinheiro.
A Lógica do Dinheiro: Do Coletivo ao Privado
A distribuição financeira é o ponto onde a Premier League humilha o modelo brasileiro. Enquanto a CBF lucra bilhões e repassa migalhas em forma de “fomento” para manter o apoio político de federações pequenas, a liga inglesa opera sob a lógica da equidade competitiva.
Os direitos de TV da Premier League são divididos de forma agressivamente justa:
50% são divididos igualmente entre todos os clubes.
25% são baseados no mérito (posição na tabela).
25% são baseados na audiência.
Isso garante que o último colocado da liga inglesa receba mais dinheiro de TV do que o campeão de quase todas as outras ligas do mundo. No Brasil, a CBF não organiza a liga para os clubes; ela organiza a liga para si mesma. Os clubes brasileiros, endividados em 10 bilhões, brigam entre si por migalhas enquanto a CBF acumula 4 bilhões em ativos.
O Produto vs O Político
Recentemente, vimos a queda de Ednaldo Rodrigues e a ascensão meteórica de nomes como Samir Xaud (vindo da federação de Roraima) sem nenhuma relevância esportiva no cenário nacional. Mas quem realmente segura a batuta dessa orquestra? Os nomes nos bastidores formam um triângulo de influência que atravessa décadas:
O CEO da Premier League é um executivo de mercado, cobrado por metas e crescimento de marca. O presidente da CBF é um articulador político, um “Testa de Ferro”, preocupado em manter e atender os interesses dos verdadeiros donos do poder da CBF: o Clã da Família Sarney onde Fernando Sarney é o “Chanceler”. Sua presença na FIFA e na CONMEBOL garante que a CBF seja intocável perante organismos internacionais. Se o governo brasileiro tentar intervir na CBF por corrupção, ele aciona o gatilho da FIFA de “ingerência externa”, ameaçando tirar a Seleção da Copa. É o xeque-mate perfeito.
O Grupo Zveiter: A influência no STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) é o que mantém a ordem jurídica. Onde as leis do país são complexas, o “Direito Desportivo” cria um universo paralelo onde os interesses da cúpula são sempre preservados.
Romero Jucá e a Articulação do Norte: O controle das federações do Norte é a base de sustentação. Estados que não figuram na elite do futebol são os que decidem quem manda na elite. É uma democracia invertida.
Na Inglaterra, o objetivo é vender o “espetáculo” para 200 países. No Brasil, o objetivo é vender o “acesso” ao poder e à influência. O resultado dessa narrativa linear é óbvio: a Premier League tornou-se a liga mais rica e assistida do planeta, enquanto o Brasileirão, apesar de ter a melhor “matéria-prima” do mundo, continua sendo um exportador de gado humano para sustentar o luxo dos palácios da Barra da Tijuca.
Enquanto o Brasil não realizar sua “Revolução de 1992” — separando a organização do campeonato (Liga) da gestão da Seleção (Federação) — o futebol brasileiro continuará sendo um gigante acorrentado por mãos que preferem o poder político ao sucesso desportivo.



